Clarice Freire

Inteligência (s)

2 / setembro / 2015

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Ontem perguntaram o que é inteligência para mim. Fiquei pensando em uma resposta inteligente para dar e achei isso um tanto suspeito. Sim, não existe alguém que suspeite mais de mim mesma do que um serzinho que mora dentro do meu cérebro e é bastante parecido comigo, contudo ainda mais exigente e ranzinza. Tem uns cabelos desgrenhados e usa uma blusa branca com uma tipografia preta, em negrito, escrito “Ei!”; e me olha torto todas as vezes que quero abrir a boca. Não sei se esse serzinho mora em um quarto alugado da inteligência ou da burrice. Acho que se muda todos os dias. Mas voltemos.

No espaço de um segundo, reformulei minha resposta com novas perguntas. Não queria dar uma resposta inteligente, normalmente ela sai muito limitadinha quando forçamos a barra desse jeito. Neste mesmo segundo, lembrei que não existe apenas um tipo de inteligência, mas várias. Listei algumas. Qual é a maior delas? Já me perguntava no segundo seguinte. Aí veio uma lembrança.

Na noite anterior, estava ao lado de um amigo que rezava. Sabe quando deixamos escapar em voz alta um apelo do coração? Pronto, ele fez isso. E eu escutei. Não sou bisbilhoteira, estava sentada bem ao lado. Dizia para o seu Deus: “destrua meus templos, construa os seus”. Lembro que achei aquilo — além de bonito — extremamente inteligente. Não falo de crenças, calma. Mas essa frase me chamou a atenção pela disposição que este amigo tinha em abandonar planos menores por um maior, mesmo que os menores fossem seus. E normalmente gostamos muito dos nossos planinhos. Eis um pensamento inteligente.

Percebi que nossas inteligências conversam entre si e, se forem inteligentes, servem umas às outras. Releia esta última frase. Obrigada. Quando conhecemos “alguém muito inteligente” normalmente nos referimos a alguém (de óculos. Odeio não usar óculos) que detém muito conhecimento, sabe muitas fórmulas, leu muitos livros, conquistou muitos títulos, é capaz de conversar sobre vários assuntos. Isso, obviamente, é verdade.

Mas de que serve tanta “sabichonice” se não aos nossos anseios de travesseiro?

Sim, aqueles que nos assaltam quando estamos sozinhos e indefesos na cama, ao final do dia. Ah, os anseios do travesseiro são muito sinceros, exigentes e gulosos. Querem sempre mais que livros e números. Normalmente eles moram naquela coisa antiquada e pouco visitada chamada alma. Existiria, portanto, uma inteligência espiritual, por assim dizer? Ah, sim. Mas poucos a alimentam. E precisa de todas as outras para comer.

A meu ver, quem usa de todas as suas sabedorias para servir às exigências do travesseiro, é a mais inteligente das criaturas.

Para ser sincera, conheço várias e poderia até ousar ter certeza delas. Mas sou a famosa-ninguém no ramo da psicologia, por exemplo. Me contento contente com minha opinião de olho, o mundo para mim não é o que vejo?

Não! É principalmente e acima de tudo o impossível de se enxergar com os olhos.

Acabo de narrar o que foi o meu segundo de pensamento. Um segundo para uma resposta que não fosse inteligente, mas tão sincera quanto às exigências do travesseiro: inteligência é dar de comer para a alma com todas as outras sabedorias que juntamos pelo caminho, livros e óculos. Falando em óculos, que ironia.

Só os inteligentes enxergam invisíveis. E isso até se aprende com o universo.
Ou com a idade.
Mas nunca
na universidade.

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Comentários

3 Respostas para “Inteligência (s)

  1. Que texto lindo! Já faz algum tempo que não leio algo tao simples mas ao mesmo tempo muito profundo, a inteligência é algo tao vasto,que nos faz pensar muito. Adorei!

  2. Mas de que serve tanta “sabichonice” se não aos nossos anseios de travesseiro? Mais pensamento que irá preencher minha cabeça, enquanto eu estiver com ela no travesseiro.

  3. Inteligencia e isso, e saber dizer as coisas simples com simplicidade,acho muito relachante e admiravel seus textos,abraços

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