Clube de Leitura

Clube de Leitura: Nós

2 / setembro / 2015

Por Bruno Leite*

David Nicholls

Quem já fez viagens em família sabe que esse tipo de programa sempre envolve discussões, brigas e gritaria (e talvez resida aí a graça em viajarmos todos juntos). E é exatamente uma viagem em família que David Nicholls nos apresenta em seu último livro.

Em Nós, pai, mãe e filho partem em um tour pela Europa para conhecer obras icônicas da história da arte enquanto tentam se (re)conciliar. A premissa parece simples, mas o romance vai muito além do óbvio. A seguir, uma pequena lista com os momentos mais apaixonantes dessa história.

É impossível não falar sobre uma característica fundamental dos livros de Nicholls: a identificação imediata entre leitores e personagens. Então, vamos começar com uma análise que Douglas Petersen, o narrador de Nós, faz de sua juventude:

Para a maioria das pessoas, os vinte anos representam um tipo de nível máximo de sociabilidade, à medida que embarcam em aventuras no mundo real, encontram uma carreira, têm um vida social ativa e emocionante, se apaixonam e mergulham no sexo e nas drogas. Eu estava ciente de que isso estava acontecendo ao meu redor. Eu sabia das boates, das inaugurações de galerias, dos shows e das manifestações; reparava nas ressacas, nas roupas repetidas vários dias no trabalho, nos beijos no metrô e nas lágrimas no refeitório, mas observava tudo através de uma espécie de vidro grosso.

O que vocês acham das descrições de Nicholls? Ao ler isso, sinto como se conversasse com um amigo.

Outra coisa que admiro muito nos romances de David Nicholls é que você pode odiar as ações e as atitudes dos personagens — mas dificilmente odiará os próprios personagens. Uma das grandes habilidades do autor está justamente em criar tipos singulares, mas ao mesmo tempo verossímeis e carismáticos. O que vocês acham da construção de seus personagens? Amaram todos, como eu, ou acabaram desgostando de algum no meio do caminho?

Em Nós, minha grande paixão é Connie, a esposa de Douglas. Adoro sua vitalidade e coragem. Após ouvir um desabafo da esposa, Doug admite:

Connie recuperara a capacidade de falar e me contou sobre sua grande e desleixada família, a mãe, uma ex-hippie, volúvel, bêbada e emotiva, o pai biológico havia muito ausente, deixando-lhe nada além do sobrenome. Que era? Moore. Connie Moore — um nome fantástico, pensei, como uma aldeia na Irlanda. O padrasto não poderia ser mais diferente, um empresário cipriota que dirigia algumas questionáveis lojas de kebab em Wood Green e Walthamstow, e ela era agora uma anomalia em sua família: a artista, a inteligente.
(…)
As biografias que damos de nós mesmos nesses momentos nunca são neutras, e a imagem que ela escolheu para me apresentar era a de uma alma muito solitária. Ela não estava sendo piegas ou expressando autopiedade, de modo algum, mas, passada a bravata, parecia menos confiante, menos certa de si, e me senti lisonjeado por sua honestidade.

Com elegância, Connie carrega essa honestidade por toda a história. Vocês também tiveram essa impressão? Acreditam que Doug de fato tinha motivos para ser perdidamente apaixonado por essa mulher mesmo após vinte anos casados ou acha que ele estava apenas acomodado?

Sobre a estrutura narrativa: David Nicholls alterna passado e presente. Em cada capítulo, Doug narra as descobertas da família em uma das cidades do tour e relembra momentos decisivos de sua história com Connie. Esses ganchos, presentes nos finais dos capítulos, poderiam confundir a cabeça do leitor, mas, na verdade, enriquecem o livro. Será que sou o único que teve essa impressão?

Uma das minhas surpresas durante a leitura foi o fato de Doug gostar de Billy Joel. Para quem não sabe, Billy Joel é um dos grandes hit makers dos Estados Unidos, um Elton John americano com um pouco menos de… glamour. Aproveito a oportunidade para inserir aqui uma de suas melhores músicas — e que tem tudo a ver com o tour da família Petersen.

Essa é a música perfeita para o Doug, sem sombra de dúvidas. E por falar em nosso narrador/protagonista, vamos discutir agora o seu humor, uma ironia aveludada com um toque de autodepreciação nada piegas. Nicholls é corajoso ao adotar um tom leve e divertido para falar sobre o fim de um casamento — e essa escolha faz com que sua história escape do dramalhão e ganhe ares libertadores.

Não é impossível terminar um relacionamento com bom humor. Todos sabemos que é uma experiência sofrida, mas já tive o prazer de ter alguém tão incrível ao meu lado que até nossa despedida foi inesquecível.

Acho que já me alonguei demais, mas ainda gostaria de saber: por acaso você conhece alguém que seja parecido com o Albie? Já esteve em algum dos museus citados no romance?

No dia 10 de setembro nos reuniremos na Livraria Cultura no Shopping Bourbon, às 19h30, para discutir sobre essas e outras questões. Para participar, basta enviar um e-mail para renato.costa@livrariacultura.com.br informando o nome, CPF e telefone para contato. Se você não puder ir, não tem problema. Participe do clube de discussão on-line sobre Nós.

 

Leia também: Clube de Leitura de Até você ser minha

Bruno Leite, 26 anos, é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

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