Clarice Freire

Seja lá o que for o mar, finja que já conhece

6 / agosto / 2015

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Dia desses conheci uma figura boa. Marido de uma amiga querida. Um homem que já viu e ouviu muita coisa na vida. Falávamos sobre o mundo, o tempo e as andanças por aí. De repente ele me conta, achando graça, uma história de dois conhecidos seus que moravam no interior há muitos anos e que nunca tinham visto o mar— e suas verdes cores azuis. Vieram juntos, o irmão mais velho e o mais novo. Ele me narrava os detalhes do nervosismo da dupla, crescente com o grau de aproximação do ônibus — que levava outros virgens de mar em estado de glória — à orla de Ipanema, se não me engano. O medo de parecer caipira a ponto de nunca ter visto o infinito de águas salgadas com aquela idade toma totalmente o irmão mais velho.

Ele agarra o mais novo pela gola da camisa, séria e nervosamente, apelando em tom de ameaça afobada:

— O que quer que seja o mar, finja que já conhece!

Esta frase bateu em mim como uma onda forte, daquelas que nos pegam desprevenidos enquanto julgamos nossas canelas firmes o suficiente para nos manterem de pé,. Mas percebemos, com litros de água descendo salgadamente pela garganta, que estávamos um tanto enganados.

A princípio achei graça e ri bastante da situação. E da frase. Mas depois, de volta para o meu canto, fiquei mastigando aquela cena e o tal do “que quer que seja o mar”.

Fiquei me imaginando mulher feita que nunca havia visto aquela imensidão desconhecida, sem fim aparente, sem horizonte. E mais: com as águas-vivas. Como uma criança que cresceu em uma cidade litorânea muito bem servida de praias nos verões, sempre me pareceu natural o movimento da água. Contudo, fiquei imaginando, caso não fosse acostumada, se não acharia mágico aquelas ondas se formando do nada, rebeldes, querendo se deslocar e pular fora do mar até cansarem, caírem, se espalhando de volta ao inevitável. Não é maravilhoso?

De repente, olhando a vida pela janela, vários oceanos desconhecidos se abriram diante dos meus olhos já crescidos e me vi uma caipira amedrontada em pleno quebra-mar. Eles — os oceanos nada pacíficos — se apresentam para mim assim imensos, assim intensos, assim densos e diários. Não é assim a vida? Que vergonha, meu Deus. Todo dia é uma nova agonia e alegria.

É tanto desconhecer que não me resta mais nada a não ser a sábia frase do irmão mais velho: “O que quer que seja o mar, finja que já conhece.” Eis o meu teatro constante, podem me aplaudir, dar prêmios e me levar para receber as pompas no festival de Cannes, por exemplo. A cada segundo, vejo uma nova onda se erguer misteriosamente e o assombro é inevitável. Dentro de mim, o pânico e o susto gritam alto, mas, por fora, ah, por fora, finjo que já conheço e me sento na areia da coragem — vulgo, cara de pau —, me lanço nas águas. Cada vez mais profundas.

Deve ser isso que chamam envelhecer. Ou amadurecer, para ser mais branda. Ou simplesmente viver, para ser mais sincera. É aquela decisão nunca tomada, é a situação embaraçosa, é a cabeça embaralhada. É aquele olhar sedento de você e de suas mãos vazias. É o ir ou o voltar, permanecer ou estar, perder ou amar e a vontade maluca de voltar.

Meus oceanos desconhecidos nunca foram pacíficos. Pelo menos não à primeira vista. Confesso que algumas vezes, depois de um tempo, se tornam quase piscinas naturais onde dá para caminhar descalça, aproveitando a água morna. Outras vezes são noites de tormenta, uma mais forte que a outra, e a caipira aqui precisa segurar os gritinhos assustados e, veja bem, fingir que já conhece.  Seja lá o que for o mar: se lança! E logo, que lá vem onda.

O segredo é mergulhar no espírito descobridor e se manter bem feliz no seu barquinho. Quem não sentiu o gosto do sal e a doce incerteza do horizonte sem-fim, não sabe o que é ser sonha-dor. E morre no porto.

Deus me livre.

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Comentários

5 Respostas para “Seja lá o que for o mar, finja que já conhece

  1. Simplesmente lindo, poético e capaz de transpor. Para os mares de dentro e de fora.

  2. Adoro os textos de Clarice. Pura poesia que acalma com reflexão o coração mais inquietante… Mais uma vez sonhando com esses textos compilados nos próximos lançamentos da Intrínseca…

  3. Nossa,acabei de viajar no tunel do tempo,lembrei que conheci o mar só com uns doze ou treze anos,levado pelo meu pai,caminhamos pela Antonio Falcão já proximo da domingos ferreira eu sentia o cheiro da maresia,um gosto que jamais me abandonou,a visão das aguas foi indescritivel,acho que naquele primeiro banho salgado comecei a perder a minha essencia caipira,não sei se foi bom ou não,hoje quase sempre,quando passo na avenida boa viagem,ou estou ligado no transito,ou com a cara e a alma enfiada em um livro,o mar é pra ser visto,obrigado Clarice pelo sonho.

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