Leticia Wierzchowski

Pode dar certo, sim

21 / agosto / 2015

A casa típica polonesa cuidada e mantida por Ágata Grochot dos Santos, que fica no meio do verde, ao redor da pequena Santo Antônio do Palma.

Semana passada, peguei um ônibus de Porto Alegre até Passo Fundo e, de lá, segui uns 100 quilômetros de carro para uma cidadezinha chamada Santo Antônio do Palma. Acho que vocês nunca ouviram falar do lugar; eu nunca tinha ouvido. Sorte de Santo Antônio do Palma! Nos dois dias em que lá estive para uma feira literária, constatei que há, sim, no Brasil, civilidade.

Em Santo Antônio do Palma não existem escolas privadas. Uma escola estadual e outra municipal atendem a toda a comunidade; a cidade é pequena, pouco mais de dois mil habitantes, espalhados também pela zona rural no entorno. Cada aluno tem direito a transporte público — a prefeitura disponibiliza ônibus para buscar as crianças em suas granjas, sejam estudantes da escola municipal, sejam da estadual. À época da faculdade, os jovens têm transporte garantido para as universidades da região, tudo custeado pela prefeitura. Todos têm escola e transporte. Todos têm ajuda do governo para consultas médicas. Todos sorriem em Santo Antônio do Palma. E as famílias não costumam trancar a porta à noite em Santo Antônio do Palma. E as crianças brincam no meio da rua em Santo Antônio do Palma. E os jovens fazem churrasco na praça central em Santo Antônio do Palma.

Vi uma cidade humana como poucas. Pequena, também. Lá não há livraria — é preciso ir até outras cidades maiores ou até Passo Fundo, o polo da região. Santo Antônio do Palma não tem cinema, mas parece ficção: as filhas do prefeito estudam na mesma creche que as crianças mais carentes, e todos são amigos — pais e filhos e avós, os mais e os menos favorecidos —, todos trabalharam juntos pela realização da Feira do Livro da cidade. Vi os filhos de Santo Antônio do Palma cantando e dançando — dos 2 aos 17 anos — no palco. Falei com eles. Garanto que, em 18 anos viajando por aí em feiras maiores ou menores, nunca encontrei, em município algum, uma plateia tão atenta e educada. Os telefones não tocaram em Santo Antônio do Palma. Nem uma vez.

Voltei feliz e triste para casa. Feliz por ver que é possível, que existe, sim, um Brasil que dá certo. E triste porque estou na parte do país que vem dando errado, cada vez mais.

 

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Comentários

Uma resposta para “Pode dar certo, sim

  1. Texto inspirador: de vida. Me pergunto como fazer um Brasil melhor, e eis que me parece que a resposta é simples. Sim, voltar às coisas simples, acreditar na educação e pensar um pouco mais coletivamente. Grata por compartilhares uma experiência de esperança.

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