Leticia Wierzchowski

Dos aprendizados

6 / agosto / 2015

ocio criativo

Pintura de Nel Jansen (Via http://bit.ly/1Eb2qxK)

No delicioso livro Por que ler os clássicos, do italiano Italo Calvino, deparo-me com um pequeno trecho em que o autor cita a obra de Emil Cioran, filósofo romeno radicado na França: “Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta.” “Para que lhe servirá?”, perguntaram-lhe. “Para aprender esta ária antes de morrer.”

Fiquei muito tempo pensando nessa historieta — o esforço nos mantém vivos, o aprendizado nos renova. Todos sabemos, é claro, que o ócio excessivo nos apequena. Sou uma fã do ócio — do ócio criativo (lá vem outro italiano neste texto, o sociólogo Domenico De Masi, autor do livro de mesmo nome). Sei, por experiência própria, que ter tempo de sobra é uma das premissas da criatividade. É preciso deixar o espírito quieto para que as ideias, esses pássaros fugidios, pousem em nós.

Organizo-me de modo a ter certo tempo diário de silêncio e paz em frente ao meu computador — faço mil coisas práticas no primeiro terço do dia para que o segundo guarde a calma que me é necessária para escrever. Mas, na parte fisicamente ativa do dia, estou sempre tentando experimentar ou aprimorar alguma coisa nova. Aprender é viver. Experimentar-se é manter-se jovem. Foi assim que fiz balé aos 30 anos, depois comecei a praticar ioga. Foram três bons anos de autodescobertas, até que, por tolice própria, me machuquei feio e deixei a prática da ashtanga. Mas nunca me arrependi; muitas coisas da ioga ficaram em mim. Em outro momento mais desanimado da vida, comecei a correr. E sigo correndo, feliz, pelas ruas esburacadas da cidade — correr é um esforço que, nesta fase atual, me mantém viva e alerta.

Fazer coisas é sempre melhor do que não fazer, diz Italo Calvino no seu ensaio literário. E, quando lhe perguntam por que devemos ler os clássicos, ele responde: porque é sempre melhor lê-los do que não os ler. Ah, Calvino, as verdades desta vida são tão simples!

Em tempo: Italo Calvino é dono de uma das mais belas narrativas contemporâneas. Se vocês ainda não leram, vale conhecer a trilogia Os nossos antepassados, composta pelas obras O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente.

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