Filipe Vilicic

Três anos de cerco ao Instagram

13 / julho / 2015

 

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Uma série de coincidências despertou meu interesse pela história do Instagram, a rede social agora mundialmente famosa. Sim, Michel Krieger, um de seus fundadores, é brasileiro. O fato, por si só, já chamaria a atenção de qualquer jornalista conterrâneo. Mas houve outros acasos.

A startup de Michel começou a testar o Burbn, o confuso app que antecedeu o Instagram, no mesmo ano em que iniciei minha carreira no mundo digital: 2010. Desde pequeno me interesso por ciência e tecnologia e sou aficionado por revistas como Superinteressante e National Geographic. Comecei a sonhar ser jornalista com uns 10 anos de idade, inspirado por personagens como Homem-Aranha, Superman e Spider Jerusalem. Via-me na redação de uma National ou de uma Wired. Assim, enquanto Michel Krieger virava Mike nos Estados Unidos, formava-se em Stanford e corria atrás do sonho de fundar uma startup, do outro lado do continente americano eu perseguia o desejo de testemunhar, como jornalista, descobertas científicas impressionantes, inovações e, em especial, a ascensão do mundo digital.

Em 6 de outubro de 2010, Mike e seu sócio americano, Kevin Systrom, lançavam o Instagram. No mesmo dia, eu completei 25 anos. Na época, batalhava para me firmar na editoria Ciência e Tecnologia da revista de maior circulação do país. Lutávamos por nossas aspirações, embora do meu lado as ambições fossem bem mais modestas — ao menos não envolviam cifras milionárias.

Working late into the night to make Instagram even better. All we require: little heaters. It’s freezing in here!

Uma foto publicada por Kevin Systrom (@kevin) em

O brasileiro Michel e seu sócio, Kevin Systrom, no começo do Instagram

Passei a viajar com constância para o Vale do Silício, na Califórnia, a fim de visitar empresas como Google, Twitter e Facebook. À época, boa parcela de minhas fontes na região mencionava Michel como o brasileiro que se destacava no universo das redes sociais. Já me sentia atraído por sua trajetória, mas aguardei um pouco, uma vez que os comentários davam conta de que talvez o Instagram fosse apenas “modinha passageira”. Aos poucos, porém, constatei que a startup se tornava cada vez mais sólida. Em um ano de existência, eram 12 milhões de usuários. Esse sucesso meteórico culminaria na Páscoa de 2012, momento em que mais uma coincidência me aproximaria dessa saga.

Durante três meses me dediquei a uma reportagem sobre jovens brasileiros que despontavam na indústria digital. Assim, fui incumbido de conversar com o fundador do Instagram. Discreto quanto à vida pessoal, Mike me deu alguns dribles antes de, finalmente, me conceder uma entrevista graças à intervenção de um amigo comum. Tivemos quatro longas conversas. Para minha matéria, eu precisava de poucas informações, apenas algumas linhas sobre a aventura que o havia levado de São Paulo a São Francisco. A história, porém, era tão inusitada que me senti compelido a saber mais. Em um período de sete dias, Mike lançara o Instagram para o Android (o sistema operacional do Google, concorrente de iPhones e iPads), negara ofertas tentadoras de aquisição vindas do Twitter e do Facebook, captara mais 50 milhões de dólares em investimentos. E ainda se preparava para a visita da irmã, vinda de Nova York, com quem passaria a Semana Santa — feriado que Mike esperava fosse que “tranquilo”, conforme me confidenciou. Mas não foi bem assim. Minha suada reportagem foi publicada um dia antes de me avisarem, em pleno domingo de Páscoa, que o Instagram havia sido vendido, repentinamente, por 1 bilhão de dólares ao Facebook. Talvez tenha sido a maior coincidência de todas. A impressionante negociação entre Kevin Systrom, CEO da empresa, e Mark Zuckerberg, mandachuva do Facebook, dobrou o valor do Instagram. Poucos dias antes, Mike acreditava – e parecia sincero – que a startup talvez nem valesse “os 500 milhões de dólares que tanto falam por aí”. Verdade, não vali 500 milhões de dólares. Valia o dobro. Na semana seguinte, procurei Mike. Ele alegou estar preso a um contrato de confidencialidade e frustrou minha abordagem. Não desanimei. Em São Paulo, em visitas à escola que ele frequentou, ou em São Francisco, onde ele morava, eu fazia perguntas sobre Mike a todos que tinham ou haviam tido contato com ele. Não sabia ainda o destino de minha apuração, mas não me preocupava com isso.

Uma foto publicada por Kevin Systrom (@kevin) em

Primeira foto publicada no Instagram

Em 2013, outra coincidência: a Intrínseca me sugeriu escrever um livro sobre a criação do Instagram. Para meu espanto, os editores se interessavam pela mesma história que despertava havia tempos minha atenção. Procurei por Mike. Ele tinha uma entrevista agendada comigo sobre as novas ferramentas que lançaria no app e eu aproveitei o papo para lhe apresentar o projeto. Mike foi conciso: “Sim, vamos falar mais, mande e-mails explicando.” Enviei várias mensagens, e nada. Sem esmorecer, prossegui com a apuração.

Fosse por medo de se expor (Mike mencionara a pessoas próximas que tinha receio de que sua família, no Brasil, fosse alvo de sequestro), pelo contrato de confidencialidade firmado com o Facebook (declarações erradas à imprensa poderiam lhe tirar ações da empresa), ou por razões que desconheço, o fundador do Instagram não respondia às minhas investidas. Ainda que ele tenha impedido algumas fontes de me conceder entrevistas, percebi que não se opunha formalmente ao trabalho. Fui em frente, sempre esperando que respondesse a, pelo menos, um dos meus e-mails, ainda que a resposta fosse negativa.

Após quase três anos de pesquisas e entrevistas, com viagens ao Vale do Silício e visitas (oficiais ou não) às várias sedes do Instagram, comecei a ficar preocupado. Finalmente, obtive uma resposta, extraoficial. Um “não”. Pensei em desistir, mas voltei a me entusiasmar quando, dias depois, o empreendedor israelense Itay Adam aceitou conversar comigo sobre um conflito ocorrido entre ele e Mike, relatado em seu blog com o seguinte título: “Como Mike Krieger, fundador do Instagram, matou minha startup”.

Segundo Adam, Mike havia dado aval para o desenvolvimento de um app cuja existência só valia se coligada ao Instagram. O empreendedor conseguiu investimento, contratou equipe, abriu escritório. Quando tudo estava finalizado, porém, foi impedido de linkar o programa ao Instagram. Desesperado, escreveu diversas vezes a Mike cobrando explicações, sem resposta. “Tive de demitir funcionários, pais de família que passaram a enfrentar o desemprego, perdi dinheiro, sendo que o Mike poderia muito bem ter dado um retorno negativo logo de início”, lamenta Adam.

Decidi que não passaria pelo mesmo infortúnio. Ninguém mataria meu trabalho. Apurei mais, e melhor, fui fundo e escrevi O clique de 1 bilhão de dólares. Acredito que o fato de ser um texto “não autorizado” só o valoriza, pois isso permitiu que o resultado ficasse isento, com pontos de vista diversos.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

mike&flotus

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Comentários

2 Respostas para “Três anos de cerco ao Instagram

  1. Muito interessante o texto, Filipe!

    Apresentou-me fatos dos quais eu sequer tinha conhecimento, como o fato de um dos criadores do Instagram, Mike, ser brasileiro!

    No caso do seu projeto e dedicação, desistir é realmente um caminho que nos parece mais palpável e prático, mas quem persiste com certeza tem alguma resposta do destino! Meus parabéns por não ter desistido!

    E realmente fiquei instigado em saber mais sobre a história do Instagram e sobre o tal “sumiço” de Mike, que não respondeu às suas investidas!

    Bom, agora lerei o trecho d”O clique de 1 bilhão de dólares”! Hehe.

    Forte abraço,
    Lucas Neves.

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