Leticia Wierzchowski

O Tintim

23 / julho / 2015

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Tive uma cachorrinha que entrou na minha vida antes da chegada dos meus dois meninos. Foi a primeira filha que tive. De certa forma, com ela ensaiei as responsabilidades maternas que, um dia, me esperariam numa esquina da vida. O seu nome era Nana, uma lhasa apso que, de pequena, morava numa bolsa. Explico-me: vivendo em Sampa, uma cidade pet-friendly, a Nana ia para tudo quanto era lado comigo, dentro da bolsa. Era um barato como a Nana, pretinha feito um tição, gostava de circular por ruas e shoppings, só o focinho de fora, vendo a gigantesca Sampa com seus curiosos olhos de jabuticaba.

Depois nasceu o João, e a Nana cuidou dele. João ia na parte de cima do carrinho, a Nana ia embaixo, rosnando para todo mundo que elogiasse o bebê — aquela cachorra miúda e graciosa punha-se brava sempre que um estranho espiava o nosso gurizinho. O João cresceu e a Nana também. E depois chegou o caçula — esta segunda criança na casa, acho eu, foi demais pra cachorrinha. Ela se sentiu revoltada, aprontava as artes mais terríveis, e eu, noites em claro com meu Tobias, que dormia muito mal, ainda tinha que resolver as bagunças da Nana na manhã seguinte — uma das preferidas era arrancar as roupinhas do bebê do varal e fazer xixi em cima delas.

Assim, definiu-se que a Nana passaria uns tempos com a minha irmã, a quem ela sempre amou. Aliás, era um amor recíproco. Vivemos uma espécie de guarda compartilhada, com a balança pendendo mais e mais para a Lisi, minha irmã, até que a Nana começou a passar apenas os verões conosco na casa de praia. Foi no segundo desses verões que ela fugiu, já uma senhora. Nana tinha quase 14 anos quando cavou um buraco, passou por debaixo da cerca e pluft!, desapareceu.

Foi triste aquilo. E eu disse: nunca mais. Cachorro nunca mais. O tempo foi passando, os guris foram crescendo, o pequeno, que se lembrava vagamente da Nana, pedia um cachorro dia sim, dia não. E meu coração amolecendo, amolecendo… Foi assim que, numa noite de sexta, pra surpresa de todos, chegou aqui o Tintim — um outro lhasa, só que dourado. Foi recebido com lágrimas de alegria, beijos e um lugar na cama (!) do caçula. Foi amado por todos, mas enrabichou-se definitivamente pelo Tobias.

Um cachorro é um amor que a gente ganha — eu até tinha me esquecido disso, mas Tintim chegou aqui para me lembrar. Enquanto escrevo estas linhas, ele dorme no meu colo, já devidamente acostumado com o tec-tec do teclado e com as horas que passo aqui, neste cantinho da sala, tentando catar e colocar em ordem duas ou três ideias que prestem. Um brinde ao mais novo membro da nossa família!

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