Leticia Wierzchowski

Meu peixe

9 / julho / 2015

natação

No final da adolescência, em função de uma lesão no joelho, comecei a nadar por recomendação médica. Nunca mais parei. Sou uma pessoa que adora esportes e a natação sempre foi o meu esporte de base. Longos trechos dos meus livros foram pensados embaixo da água, nas piscinas desta vida.

O meu primogênito eu o coloquei na água aos três meses — aulas de natação para bebês. Ah, as mães de primeira viagem são afoitas… João entrou e saiu da natação ao longo de vários anos. Um dia engrenou na coisa, entrou na equipe do Clube União em Porto Alegre e seguiu nadando, nadando, nadando. A natação virou uma parte importante da sua vida, uma parte fundamental.

Ano passado, por dificuldades de logística, morando fora de Porto Alegre, João ficou sem clube. Durante alguns meses, passou as tardes vendo séries na televisão, estava acabrunhado. A falta da endorfina, pensei. Então, como mãe nadadora, procurei o treinador dele em Porto Alegre e iniciamos um treinamento a distância. Eu recebia os treinos e, diariamente, passava-os a João. Comprei um cronômetro, alguns livros e me muni de paciência para acordar cedo aos sábados e domingos e correr com ele para o clube perto de onde morávamos — um clubezinho supersimpático, mas que só tinha uma piscina social, comprida. Sim, dava para treinar, o problema é que ela se enchia de sócios nos finais de semana. O remédio então era sempre chegar antes, e madrugávamos.

Durante dez meses, meu filho de 13 anos treinou diariamente comigo — eu fui a equipe dele, ele foi a minha. Escrever exige disciplina, paciência e persistência — praticar um esporte a sério, também. Vi João acirrar a sua vontade nas muitas horas que passamos juntos, eu tentando dar o meu melhor, João dando o seu melhor. Se chovia, era sob a chuva. Se fazia calor, lá estava eu, em qualquer mísera sombra. Foi uma experiência e tanto — a natação uniu-me ainda mais ao meu filho adolescente numa época em que estes dois mundos, o dos pais e o dos filhos, costumam apartar-se um pouco.

No último sábado, já de volta à sua equipe no União, meu filho competiu por uma vaga nos Jogos Escolares 2015, cuja final será no Ceará. Das três provas que nadou, ganhou um Ouro e uma Prata. Ele garantiu a sua vaga, mas, para mim, vendo-o nadar com aquela garra, aquele menino tão crescido, com uma musculatura de fazer inveja a muito marmanjo, com uma força de vontade de fazer mais inveja ainda… Bem, vendo-o nadar, meu coração se encheu de alegria. Eu estava lá com ele em cada braçada, estive lá com ele em todas as suas piscinas. Não sei o que João pensa enquanto nada, eu — enquanto nado — tenho pensado que ele é uma das histórias mais bonitas que já escrevi.

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Comentários

Uma resposta para “Meu peixe

  1. Nossa, acho que esse é um dos textos mais simples – e mais lindos – que já li. Adorei <3

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