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Curiosidades sobre Estação Onze ou “Porque sobreviver não é suficiente”

13 / julho / 2015

Por João Lourenço*

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Shakespeare no fim do mundo

Apaixonada por cinema e teatro, a escritora canadense Emily St. John Mandel pretendia escrever sobre a vida de um ator em Hollywood. Mas uma ideia insistente a fez mudar de planos: como seria um mundo sem eletricidade e tecnologia? Intrigada, Mandel passou a perguntar aos amigos: “Do que você mais sentiria falta se o mundo como o conhecemos hoje desaparecesse?” A resposta da autora para a própria pergunta foi: “Eu sentiria falta da obra de Shakespeare.” E foi assim — numa intrincada mistura de Shakespeare, vida das celebridades e fim do mundo — que nasceu seu premiado romance Estação Onze.

Rei Lear e a Gripe da Geórgia

Arthur Leander sofre um ataque cardíaco no palco, durante a apresentação da peça Rei Lear. Na mesma noite, uma pandemia de gripe se espalha pelo Canadá e pelo mundo. A doença aniquila rapidamente 99% da população do planeta. Assim começa Estação Onze, romance que intercala a trajetória de Arthur em Hollywood com outros personagens relacionados a ele. Um deles é Kirsten Raymonde, atriz mirim que presenciou a morte do ator. Quase vinte anos depois, vivendo no mundo pós-catástrofe, Kirsten integra a trupe Sinfonia Itinerante, que viaja por cidades ocupadas por pequenos grupos de sobreviventes apresentando peças clássicas, assinadas sobretudo por Shakespeare, e números musicais.

Um inusitado romance apocalíptico

A narrativa de Emily St. John Mandel parte da epidemia para explorar as consequências e as reações à catástrofe. Para a autora, o caos é a resposta automática ao medo, mas, com o tempo, as coisas podem voltar ao “normal”. Com uma visão positiva (e lírica) da humanidade, Mandel defende que certas coisas jamais desaparecerão, como a arte, a solidariedade e a esperança.

Os gatos caolhos

Nascida e criada na costa oeste do Canadá, Mandel passou a infância cuidando de um casal de gatos com um olho só. O começo de sua carreira como escritora não foi nada fácil: foram 16 tentativas até conseguir fechar um contrato com uma editora independente, pela qual lançou seus três primeiros livros. Em 2014, após a publicação de Estação Onze, Emily St. John Mandel entrou para a lista de autores mais comentados e lidos da literatura contemporânea. Apesar da fama e do reconhecimento, ela acredita que um escritor precisa de uma renda fixa e continua trabalhando como auxiliar administrativa. Mandel também já foi performer de dança contemporânea e entre seus livros favoritos estão Suíte Francesa, de Irène Némirovsky, e 2666, de Roberto Bolaño.

link-externoLeia um trecho de Estação Onze

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De Neil Gaiman a Star Trek

Além das peças de Shakespeare, Mandel passou muito tempo pesquisando sites de fofoca sobre celebridades para a construção de Estação Onze. Ela também se inspirou na graphic novel Sandman, de Neil Gaiman, e no romance A Estrada, de Cormac McCarthy. Outra influência foi a série Star Trek, da qual pescou a frase: “Porque sobreviver não é suficiente.” A citação é o lema da Sinfonia Itinerante e está tatuada no antebraço esquerdo da personagem Kirsten Raymonde.

Mix de gêneros 

Emily St. John Mandel não gosta de classificações de gêneros literários e acredita que separar obras por categorias fixas é limitador e antiquado. Estação Onze venceu o Arthur C. Clarke Award, importante prêmio do Reino Unido dedicado à ficção científica, e foi finalista do PEN/Faulkner Award e do National Book Award. O título ficou por oito semanas consecutivas na lista de mais vendidos do The New York Times e os direitos para a adaptação cinematográfica já foram adquiridos por Scott Steindorff, produtor do filme Chef. 

Ilustres admiradores

Para George R. R. Martin, autor de A Guerra dos Tronos, Estação Onze é o melhor livro de 2014. Já Ann Patchett, autora de Estado de graça e Bel Canto, afirmou em entrevista para a Entertainment Weekly: “Não consegui largar esse livro por nada neste mundo.” Ao fim da leitura, a grande mensagem deixada por Emily St. John Mandel talvez seja a de que sempre encontramos uma forma de sobreviver, não importa a dimensão da catástrofe que enfrentamos. Assim como o personagem Arthur Leander, não queremos apenas ser vistos e apreciados, queremos ser lembrados. Estação Onze é uma emocionante carta de amor sobre a condição humana.

link-externoLeia também: Os lugares escuros de Gillian Flynn

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

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Comentários

9 Respostas para “Curiosidades sobre Estação Onze ou “Porque sobreviver não é suficiente”

  1. tem certeza que ninguém pirou lendo esse livro????? kkkkk extremamente viciante

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