Filipe Vilicic

Como as redes sociais nos deixaram mais próximos…

30 / julho / 2015

…e a prova para confirmar essa afirmação tão clichê 

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Sim, já é bem clichê afirmar que Facebook, Instagram e companhia estreitaram as relações humanas. Afinal, ficou fácil para um brasileiro contatar um americano, um italiano ou um vietnamita. Com quase metade da população global on-line, o mundo deixou de ser físico e virou digital. Com isso, as distâncias também se tornaram virtuais, em todos os sentidos. Mas essa afirmação é baseada em achismos ou há provas?

Uma das melhores medidas para avaliar quão conectado está o planeta ainda vem da famosa tese dos seis graus de separação. Diferentemente do que espalhou o senso comum, a teoria não nasceu em universidades, mas na literatura. Surgiu no conto Láncszemek (ligações ou links), do húngaro Frigyes Karinthy. Nele, o autor definiu: “As pessoas são separadas por seis laços de amizade. (…) O planeta Terra encolheu — relativamente falando, é claro — devido ao rápido pulso da comunicação. (…) Nunca falamos sobre o fato de que qualquer um na Terra pode agora saber, em poucos minutos, o que penso ou faço e o que quero ou o que gostaria de fazer. (…) Posso estar — Hocus pocus! — onde quero estar. Vivemos na terra das fadas.”

Parece que Karinthy descreve a nossa era moderna, a da internet. Só que ele escreveu isso há quase um século, em 1929. No que chamou de “jogo”, ou o agora célebre seis graus de separação, o escritor teorizou que qualquer ser humano, como um lojista na Avenida Paulista, conseguiria alcançar qualquer outro, como o presidente dos Estados Unidos, contando apenas com um amigo que o leve a outros cinco contatos antes de alcançar o alvo escolhido. Parecia bobagem à época. Mas, por coincidência — afinal, Karinthy criou a ideia apenas como guia para um conto fictício —, a conta elaborada pelo húngaro se provou verdadeira em experimentações científicas.

O cálculo originou um método de experimentação apelidado de small world (mundo pequeno), pelo qual cientistas desafiam voluntários a alcançar uma pessoa desconhecida do outro lado do planeta utilizando para isso somente uma mensagem. O recado deve ser passado a um amigo, que deve enviar para outro conhecido, e assim por diante, até atingir alguém próximo do destinatário final. Até os anos 2000, todos os testes apontaram: estamos mesmo separados uns dos outros por em média seis graus de separação. Pelo envio de cartas, por telefonemas, por e-mails, por SMS, pelo extinto MSN… Seja como for. Se tentamos falar com alguém completamente desconhecido, de quem só temos o nome — ou informações generalistas, como profissão e cidade onde mora —, precisamos contatar cerca de cinco intermediários, estabelecendo seis laços de comunicação.

Mas tudo mudou com o Facebook. E é aí que o tema fica ainda mais fascinante. Pesquisadores americanos repetiram o teste do small world utilizando como campo de pesquisa a rede social. O estudo avaliou como se interconectavam mais de 700 milhões de usuários do Facebook. Ao analisar 69 bilhões de links entre os cadastrados, notou-se que cada um deles estava a uma distância média de quatro pessoas de outro usuário. Ou seja, foram cortados dois graus de separação dos tradicionais seis.

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Sim, a era da internet deixou a Scarlett Johansson (ou o Brad Pitt, à preferência) muito mais próxima de você

É notável reparar que, no cálculo, a distância geográfica em nada contribuiu para a aproximação ou o distanciamento. Virtualmente, um brasileiro pode estar mais próximo de um jamaicano do que de um conterrâneo. Depois de quase 100 anos, o Facebook acabou com a teoria dos seis graus. Ou melhor, exige-se uma renomeação da tese, ao menos provisoriamente — estima-se que a separação deva encurtar ainda mais nos próximos anos —, que agora virou a teoria dos quatro graus de separação.

Sim, isso quer dizer que está fácil falar com o Brad Pitt ou com a Scarlett Johansson. Só que é mais do que isso. A aproximação de pessoas é justamente a razão e a consequência de qualquer revolução na comunicação. O telefone, o rádio e a TV não foram “só” inovações tecnológicas; eles mudaram o mundo ao estabelecer e fortificar conexões humanas. A internet, por si, não tinha mudado muito esse setor. Os contatos ficaram mais velozes, é claro. Mas era bobagem dizer que estávamos mais próximos. Isso até chegar o Facebook e a era das redes sociais.

Ainda estão sendo identificadas as consequências dessa revolução. Há pontos negativos. Por exemplo, como se inflou o radicalismo que vemos de muitos que estão no Facebook: em uma discussão, ou se está num extremo ou no outro; poucos aceitam os ponderados. Aliás, a lista de consequências preocupantes é enorme — já até falei de algumas delas. Mas os efeitos positivos são tão incríveis que se sobrepõem. Só como exemplo (há outros no meu livro O clique de 1 bilhão de dólares): o mundo se tornou mais livre e sem fronteiras com a possibilidade de um indivíduo se manifestar, se revoltar, mesmo quando seu país está sob uma ditadura; o estreitamento das relações humanas aprimorou a economia (assim nasceram inovações como o Uber e o Airbnb); e o Facebook, o Skype, o FaceTime e o Instagram permitem que eu acompanhe em tempo real a vida de meus amados sobrinhos que vivem no México.

Aviso: você gostar ou não dessa revolução global não importa tanto para a continuidade dela. Ela está aí, veio para ficar, e teremos de aprender a conviver com este novo mundo.

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Comentários

2 Respostas para “Como as redes sociais nos deixaram mais próximos…

  1. Olá Filipe! Boa noite!

    Pois é, a internet (ou como você disse, o Facebook, no caso da proximidade do contato) veio nos apresentar um mundo mais conectado e mais tátil, por assim dizer. Tornou os objetivos humanos mais possíveis! Isso é realmente incrível!

    Concordo com você na questão de haver, também, pontos negativos nesta evolução; mas em tudo podemos notar pontos positivos e negativos, não é mesmo?

    Muito bom o seu texto!

    Forte abraço,
    Lucas Neves.

  2. Obrigado pela leitura, Lucas. Fico feliz que o texto tenha feito você refletir. Grande abraço

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