Pedro Gabriel

[AS RU(G)AS DA INFÂNCIA]

21 / julho / 2015

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Não cresci com a presença física dos meus avós. Tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, eles sempre foram distantes do meu convívio. Por muito tempo em minha vida, se é que podemos chamar de vida esses primeiros anos de entendimento silencioso da própria existência (sim, a infância é a idade da Filosofia. É o período do espontâneo, no qual nossas ideias ainda não estão corrompidas pelo medo da aprovação. Pena que não nos lembramos de anotar nada, pena que nos esquecemos de registrar tudo. As frases mais bonitas nascem das crianças), em que não se faz nada além de comer e brincar, brincar e comer, meus avós eram espíritos psicografados pela minha imaginação, saídos diretamente dos livros de André Luiz e das mãos de Chico Xavier para o nosso lar, para o meu lar. Ir à rua era, de alguma forma, caminhar até o desconhecido. Era me locomover até o sofá da sala de um apartamento em que eu ainda não vivia. Era ser o gibi da Turma da Mônica de uma banca no Leme que eu ainda não conhecia. Era ser o relógio Swatch com os ponteiros coloridos (o sonho de todo petit suisse!) vendido no quiosque de um país que um dia eu visitaria.

Na avenida Doutor Ênnio, soltávamos pipa até os pés sangrarem e mancharem o chão com a tinta vermelha do esforço da nossa diversão. Só depois de muito tempo é que fui descobrir que as bolhas malcuidadas tinham criado uma cicatriz igualzinha àquela que decora seu nariz, vô.

Na viela Dona Wanda, brincávamos de amarelinha e aos poucos nos convencíamos de que jogar uma pedra no céu é o que a gente passa a fazer eternamente na idade adulta. A brincadeira é exatamente a mesma. As coisas é que mudam de nome. A pedra passa a ser o nosso medo. Tentamos a todo custo evitá-la. O céu agora é o nosso sonho. Só o realiza quem conseguir pular sem perder o equilíbrio (a nossa coragem?) e sem PISAR nos limites das casas (a nossa estrutura?). Ganha quem alcançar o sonho primeiro.

Na estrada Herr Toni quem reinava era o futebol-moleque com a criançada dos bairros vizinhos. O jogo só tinha uma regra: o dono da bola deveria ser paparicado ad aeternum enquanto durasse a partida. Meu time nunca perdeu de sete a um para os alemães, como até hoje são chamados os adversários. A infância não sabe perder porque nela simplesmente não há derrota. Tudo entra na soma de compartilhar a molecagem. Hoje, o Pedrinho me pergunta: será que um dia o Brasil vai voltar a jogar futebol?

Na alameda Frau Lina, uma turma queria ser ladrão, outra desenhava uma estrela dourada no peito e se autoproclamava xerifes do pedaço. Eu sempre ficava do lado da lei. Não sei me esconder e confesso que tenho uma preguiça incalculável de ser perseguido por pequenos agentes de menos de um metro e meio para tomar uma lição de moral. Na moral, o que é moral? E outra coisa: lição se faz na escola. Não na rua. A rua é sagrada. A rua é consagrada aos deuses da brincadeira.

Dos cruzamentos dos avós nascem pais. Das esquinas dos pais nascem os filhos. Só fui conhecer o alívio de ser neto aos doze anos. Até então, eu era um neto parcelado. Ora nas férias. Outrora aos domingos. Mas fazer o quê? A bonança de ser criança também tem suas consequências. Alguém que vive espalhado no mundo não firma base em lugar algum. E nem por isso os amei menos. E nem por isso fui menos amado. É apenas o destino traçando sua cartografia afetiva. Ora aproxima. Outrora distancia. Talvez por isso não bajule companhias nem idolatre presenças. Sempre escolhi me encolher no meu mundo. Quem se encolhe também colhe coisas bonitas. Dentro da gente existe uma plantação de coisas incríveis. Nossas ruas poderiam estar mais próximas, de fato. Mas pense bem: nossos caminhos também poderiam nunca ter se cruzado. Hoje, tenho a mais absoluta certeza de que minha infância ainda brinca nas ru(g)as de trás dos meus avós.

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Comentários

2 Respostas para “[AS RU(G)AS DA INFÂNCIA]

  1. Parabens pelo texto. Remeteu a minha infancia.

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