Pedro Gabriel

[A POESIA É MEU CASULO*]

14 / julho / 2015

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Tenho a sensação de que a poesia é uma espécie de casulo que nos acompanha ao longo da vida. Onde nossos medos podem repousar sem medo, a coragem busca forças sem brigas e a imaginação se solta e se liberta como quando éramos criança. E gritar e gritar e gritar pelo quintal. E criar e criar e criar pelas páginas em branco, que tal? Na escrita, fragilidade e brutalidade moram no mesmo lugar. Dor e sacrifício se multiplicam para dividir o mesmo espaço. Sensibilidade e incerteza duelam no corredor entre o quarto de dormir e a sala de estar (acordado?). É como se eu morasse com as minhas palavras e elas não quisessem jantar comigo.

Se a certeza não dá certo, eu me enfio nesta carcaça de seda e peço à vida que não ceda. Se perco a esperança, me recolho nesta camada frágil e protetora e espero o tempo trazer uma nova mudança. É como se os braços da minha mãe me chamassem para contar histórias infantis. Já não sei quantas vezes escutei: “Era uma vez…” A foto do meu pai na mesa de cabeceira me faz rir. Ele se parece tanto comigo… Meu pijama de Super-homem espera o sono. À noite, quero sonhar de ser herói e espantar de vez a página em branco. Meu avô toca a campainha. Eu me emociono com a companhia dele. Nas mãos, rugas dos seus quase 60 e figurinhas da Copa de 90. Oba! Vamos passar a vida todinha colando a infância neste álbum.

Todo poeta é um pouco covarde. Esconde-se na própria obra porque não consegue se abandonar. Deseja colo, mas faz poema. Ele quer solo, mas poesia é nuvem. Sempre me refugiei nas minhas sentenças para apaziguar conflitos. Um exílio ilusório, pois nunca saio de mim. Daqui, de dentro deste casulo, vi o amor bater à porta, sempre sem avisar. Entra sem bater. Bate sem entrar. Bagunça nossa tranquilidade. Quer morar com a gente. Quer morar na gente. Volta e meia, ele dá meia-volta. Já a saudade é mais discreta: ela se apossa dos cômodos aos poucos e deixa marcas em cada ambiente até que se despede sem dizer adeus nem dar sinal de ida. Deixa apenas uma fresta aberta para a solidão. A melancolia é o quarto vazio no andar de cima.

Pela janela, vejo o tempo escapar. Quero ser menino outra vez. Soltar a minha imaginação até romper este casulo com a poesia e sair pelo quintal para desenhar com as cores daquela borboleta a palavra liberdade. Pode sair. A asa é sua!

*Crônica publicada na edição de julho da revista Arquitetura&Construção.

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Comentários

3 Respostas para “[A POESIA É MEU CASULO*]

  1. Lindo, Pedro! É um sequestro inverso. As palavras nos sequestram, e a condição para a nossa liberdade e dar asinhas a cada uma delas.

  2. Quem me dera ser covarde nesse nível! Estou morrendo de amores, pra variar. <3

  3. Parabéns por seu talento!! Me identifico muito. Você é ótimo, uma inspiração para minha vontade de ser jornalista/escritora

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