Desejo de isolamento

Por Miguel Sanches Neto

8 / junho / 2015

infancia

A primeira tendência de um escritor, depois que entrega o seu livro à editora, é de se esconder, fugindo de todo contato humano, para lamber suas feridas, para não ter que ouvir o que os outros pensam desta sua nova criação. O escritor não quer ser julgado, quer ser amado, mesmo quando seu livro é uma provocação.

Em criança, participando de conflitos com vizinhos, era comum jogar pedras nas casas de madeira dos nossos inimigos para depois fugir. Eu não fugia apenas. Ia para debaixo de minha cama, chegando uma vez a dormir lá por algum tempo.

Pensando que eu tivesse abandonado a família, certa vez minha mãe convocou a ajuda de suas colegas, procurou nas imediações, perguntou aqui e ali pelo menino irritadiço que havia se desentendido com os companheiros de jogos e expedições pela quadra. A quadra era o nosso país; raramente saímos dela.

Deitado no assoalho de madeira, vendo o estrado da cama, a colcha fechando o acesso àquela caverna doméstica, eu sonhava com uma proteção contra aqueles que havia desafiado. Era uma sensação boa, de acolhimento. Ali, ninguém me acharia. Estava em meus domínios. Havia abandonado os desafetos e vagava pelo mundo, descansando desta jornada num buraco longe de tudo.

Acordei no final da tarde, já esquecido de meu bombardeio na verdade inofensivo. O mundo não me assustava mais. Podia percorrê-lo como um herói altivo. Ao sair de debaixo da cama, fui direto para a cozinha, onde minha mãe se encontrava, desolada pelo desaparecimento do menino. Ela me recebeu com um sorriso, pediu um abraço, não me censurou nem pela confusão que criei com os moradores ao lado nem pelo meu longo desaparecimento. O filho pródigo voltava à casa materna. Ela me pediu para tomar banho enquanto preparava uma sopa ou um de seus pratos rápidos para a janta.

Quando sai um novo livro, que é sempre uma pedra no telhado das casas vizinhas, não posso mais correr para meu esconderijo. O escritor tem que fazer o lançamento, conversar pela internet com os leitores, dar entrevistas a jornalistas, ler e agradecer o que escreveram sobre ele, explicar-se diante de eventuais incompreensões. Mas não deixo de alimentar este desejo hoje impossível de isolamento.

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Miguel Sanches Neto nasceu em Bela Vista do Paraíso, no interior do Paraná. É autor de seis romances, além de livros infanto-juvenis, contos e ensaios. Seu romance A Segunda Pátria foi publicado em 2015 pela Intrínseca.

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