Pedro Gabriel

[A REVOADA DA IMAGINAÇÃO] – PARTE I

23 / junho / 2015

23.06

UMA EXPEDIÇÃO POÉTICA

Pouca gente sabe, mas a Ilha de Santiago, em Cabo Verde, foi a primeira terra que Charles Darwin pisou após abandonar a costa de Plymouth, a bordo do famoso HMS Beagle — um navio de exploração da Marinha Real Britânica que, como seu homônimo canino, tinha faro para grandes expedições. Durante a estadia, dizem, o naturalista e sua trupe expedicionária capturaram pela primeira vez um pássaro de lago, que ficou popularmente conhecido como pardal e cientificamente classificado como Passer iagoensis. Foi assim que começaram suas primeiras observações na natureza, suas primeiras anotações geológicas, seus primeiros estudos de espécies animais e vegetais que, mais tarde, deram origem à sua teoria da Seleção Natural, em 1838.

Santiago também foi o chão onde atraquei meus pés de menino por quase seis anos. Se Darwin tentara provar nossa evolução, nós fazíamos de tudo para comprovar que somos descendentes diretos da nossa própria imbecilidade. Nenhum animal se orgulharia de ser nosso tatatatatatatatatatatatatatatatatatatatatatatatataravô biológico. Os macacos carregam esse fardo, à força. Mas isso é assunto para outra crônica (que jamais será escrita, lamento). Voltemos aos seres alados. O refúgio principal dessa espécie, em Cabo Verde, fica na Ilha de Mindelo. Mas eu não posso afirmar nada. Tudo o que digo não veio de estudo, veio de vivência. Minha expedição nunca foi científica, sempre foi poética.

Os pardais talvez sejam as aves mais comuns do mundo. Espalhadas por aí como as redes de McDonald´s e as vantagens da TekPix. Ao contrário do canário, que brilha com o amarelo intenso de sua penugem, o pardal não segue os padrões impostos pela sociedade aviária e desenha sua simpatia em outro cenário. Pequeno, na cor cinza e marrom, o patinho feio da ordem dos Passeriformes é detentor de uma beleza simples, sem adjetivos. Os machos não são mais atrativos do que as fêmeas. Existe uma igualdade de gênero. Temos muito a aprender com os pardais.

Os pardais fofocam nos quintais. Piam poemas curtos à la Quintana. São poetas com bico e pena nas asas. São poetas que rejeitaram a dureza acadêmica dos versos. São pássaros-marginais que idolatram um Chacal.

A primeira vez que os avistei foi na Flor de Brava, rua paralela à da minha infânciaCom os pés nos meus pedais, eu tentava imitar o voo daqueles pardais. Acelerava pela estrada empoeirada na esperança de conseguir ser um deles. Para mim, era a forma mais poética de conseguir um estágio na NASA e realizar o sonho de todo menino: ser astronauta. Na minha imaginação, eu tinha certeza que, se eu dominasse com louvor a profissão-pardal, meu limite passaria a ser a lua. E olhe lá…

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Comentários

3 Respostas para “[A REVOADA DA IMAGINAÇÃO] – PARTE I

  1. Que infância maravilhosa! Da uma pontinha de inveja. A poesia nasce naqueles que conseguem observar a vida com olhos de menino.

  2. Que coisa mais fofa de ler …. encantador !

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