[VOLTA ÀS ILHAS] Parte I

Por Pedro Gabriel

7 / maio / 2015

[A SAUDADE É UMA NOTA VERMELHA NO MEU BOLETIM]

coluna pedro

Recentemente, estive de volta a Cabo Verde, um arquipélago de dez ilhas, na África, onde passei boa parte da minha infância. Dessa vez, um pouco mais adulto, coloquei outros olhos em cada nova paisagem, em cada novo cenário que se desenhava à minha frente. Foi como se eu desfilasse novamente por aquelas ruas, onde outrora jogava bola e bolinha de gude, onde corria até a sola dos sapatos se confundir com a sola dos meus pés, onde comprava pombos só para libertá-los.

A lanchonete do Toni, onde eu comprava toda semana uma barra de chocolate Mars, não existe mais. Eu sempre achava que fazia um bom negócio. Afinal, eu dava uma moeda e recebia três moedas de troco. Para a matemática infantil, três é sempre maior do que um. Quando a gente cresce, a vida nos obriga a calcular de outra maneira. A minha primeira casa perdeu a cor rosa da fachada e ganhou novos moradores: franceses de cara fechada. Lembrei quando eu e minhas irmãs nos pendurávamos no terraço do terceiro andar, amarrados apenas por faixas de judô. Tínhamos uma certeza: a faixa amarela era mais resistente que a branca. Afinal, ela enfeitava a cintura de um aprendiz de judoca um bocadinho mais experiente do que um iniciante nessa arte marcial milenar. A faixa preta, então, devia ser mais firme que o Kevlar. Imitávamos paraquedistas sem paraquedas. Sorte nossa que nosso voo era, de certa forma, estático. Vez ou outra, batia um vento forte. Nessas horas, o judoca-aprendiz-de-paraquedista se tornava religioso nato no ato. Quando se é pequeno não se mede a grandeza dos medos. Aquele desespero que me deu, hoje, com 30 anos, ao pensar que eu fazia aquilo tudo sem pensar nas consequências, só comprova que o tempo tira a nossa coragem, nos torna covardes.

O armazém do Seu Careca, onde todos os dias comprava o pão do café da manhã, agora é uma casa residencial. Deu um nó na garganta. O prédio da minha antiga escola virou um estabelecimento comercial, se não me engano. Não tive coragem de entrar. Não quero perder a imagem que se desenha agora na minha imaginação. Raoni leva a bola para o recreio. Maxime me escolhe pro seu time. As meninas também entram no jogo, mas não porque nós, meninos, éramos open mind ou tínhamos um pensamento avançado pro nosso tempo. Simplesmente não havia garotos o suficiente para iniciar a partida. Eu sei, eu sei, os meninos às vezes são cruéis. Será que o professor Santiago, um francês que dava aula de história e sonhava em ser pintor, ainda espera meu dever de casa? Sempre tive dificuldade com deveres de casa. Para mim, deveres devem ser feitos na escola. Em casa, meu único dever deveria ser brincar de inventar brincadeiras. Em vão, tento explicar aos meus pais o meu desempenho escolar.

A saudade é uma nota vermelha no meu boletim.

link-externoLeia também: [O passado é uma cidade esquecida]

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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Comentários

4 Respostas para “[VOLTA ÀS ILHAS] Parte I

  1. Que bom que seus textos voltaram. É uma sacanagem não ter um botãozinho para voltarmos para a infância.

  2. Belíssimo! Eu sempre hei de ficar maravilhada com tuas palavras, Tonho. 🙂

  3. Que incrível! Gosto de textos realistas!

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