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Conheça o vencedor do Pulitzer Anthony Doerr

1 / maio / 2015

Por João Lourenço*

AnthonyDoerr

Abril é um mês diferente em Nova York. Marca o início da primavera e a chegada dos dias longos e das noites azuis. Abril é quando o Central Park floresce, o casaco pesado retorna ao armário e as mesas voltam às calçadas. Em uma Manhattan menos visível a olho nu, abril também é o mês de apostas e expectativas. A questão entre escritores, editores e, claro, leitores é a mesma: quem vai levar o Pulitzer de ficção? Além de ser o prêmio de maior prestígio da literatura americana, o Pulitzer não divulga os finalistas antes da cerimônia.

No dia 20 de abril, enquanto o prêmio era anunciado na Universidade de Columbia, Anthony Doerr estava em Paris, tomando sorvete com os filhos. Shauna Doerr, mulher do escritor, acompanhava escondida o resultado da premiação pelo Youtube. “Ela entrou tremendo na sala e disse que eu era o vencedor. Demorei um pouco para entender do que ela estava falando. Logo após a notícia, meu celular começou a tocar. Atendi ligações até a hora de ir dormir. Eu sabia que o prêmio seria divulgado naquele dia, mas tentei não pensar nisso.”

Inesperado para o escritor, o prêmio reforçou o prestígio de que Toda luz que não podemos ver já desfrutava entre o público. Há mais de um ano, o romance está na lista de mais vendidos do New York Times. Após o anúncio da honraria, a editora americana de Doerr mandou imprimir mais 100.000 cópias do livro. Apenas nos EUA, mais de 1 milhão de exemplares da obra já foram vendidos. E não para por aí: Scott Rudin, produtor dos filmes A Rede Social e Capitão Philips, vai adaptar o livro para o cinema.

Esse é o quinto livro de Anthony Doerr. Antes, ele já havia publicado duas coletâneas de contos, The Shell Collector e Memory Wall; um livro de memórias sobre o ano que passou na Itália, Four Seasons in Rome; e um romance, About Grace. Todos foram premiados, mas nenhum fez tanto barulho quanto Toda luz que não podemos ver.

Capa_TodaLuzQueNaoPodemosVer_WEBCom mais de 500 páginas, o romance histórico é ambientado na Alemanha e na França antes e durante a Segunda Guerra Mundial. A obra entrelaça as histórias de uma garota cega francesa, um garoto órfão alemão e um oficial nazista em busca de uma joia extremamente valiosa. A narrativa se move entre presente, passado e futuro. Segundo Doerr, a técnica imprime velocidade e suspense à trama — e também permite ao leitor um respiro entre as histórias de cada personagem.

A regra mais importante de Doerr, seguida durante a criação do romance, era não permitir que o livro soasse como uma aula de história. Ao todo, ele demorou 10 anos para finalizá-lo. “Não é uma tarefa fácil escrever um livro desse tamanho quando você é pai de gêmeos. A semelhança entre ser pai e escritor de ficção é que você não tem como prever o futuro: é impossível saber se você está fazendo um bom trabalho como pai, assim como é impossível saber se está fazendo um bom trabalho como escritor.”

Para Doerr, um bom livro deve ensinar uma lição e nos transportar para lugares que até então desconhecíamos, lugares capazes de nos fazer sonhar por um futuro melhor. Como leitor, a maior lição que tirei de Toda luz que não podemos ver foi o lembrete de que a vida real também pode ser um lugar mágico. Visíveis ou não, pequenos milagres nos rodeiam e acontecem o tempo todo.

Questionado diversas vezes sobre o sucesso da obra, Doerr é categórico: “Não tenho como explicar como um livro faz mais sucesso do que o outro, nem quero pensar muito nisso. Sou grato e fico contente em saber que as pessoas podem redescobrir esse livro em futuras gerações, quando eu já estiver debaixo da terra. Isso é fascinante!”.

 link-externoLeia um trecho de Toda luz que não podemos ver

Anthony Doerr nasceu e foi criado nos arredores de Cleveland, Ohio. Filho do proprietário de uma pequena gráfica e de uma professora, seu interesse por literatura surgiu logo na infância. “Não tinha como ser diferente. Minha mãe, além de dar aulas de ciência e matemática para mim e meus dois irmãos, também lia para a gente antes de nos colocar para dormir.” Ao contrário dos irmãos mais velhos, ele não estava apenas interessado em ouvir as histórias fantásticas de Nárnia, de C.S. Lewis. Queria saber como o autor criava um universo tão rico e particular.

Após terminar o Ensino Médio, Doerr desbravou cantos remotos, como África e Nova Zelândia, onde passou meses cuidando de uma fazenda de ovelhas. Também trabalhou em um lavatório de peixes no Alasca. De volta aos EUA, estudou História e Inglês. Em seguida, apesar de sempre ter mantido um diário pessoal e escrito inúmeros contos que nunca chegaram a ser compartilhados com ninguém, inscreveu-se em um curso de escrita criativa. “Fui atrás do curso para criar coragem para publicar algo. De onde eu venho, ninguém te leva a sério quando você diz que quer ser um escritor. As pessoas costumam achar que isso é um hobby e não uma profissão. Estudar literatura e os mecanismos da ficção me ajudaram a deixar essa mentalidade de lado.”

Hoje, aos 41 anos, Anthony Doerr mora em Boise, Idaho, com a mulher e os filhos gêmeos, de 11 anos. “Tudo que eu desejo agora é continuar indo para o meu escritório, de bicicleta, para criar e recriar universos fantásticos. Fico feliz com o Pulitzer, mas não quero ser uma celebridade ou coisa do tipo. Sinto que agora posso trabalhar com mais calma, deixar um pouco a pressão de lado.”

link-externoLeia também: A metáfora da esperança de Jennifer Egan ou “tudo começou aqui”, por Marcelo Costa

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaare com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Agora, está em NYC tentando escrever seu primeiro romance.

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Comentários

10 Respostas para “Conheça o vencedor do Pulitzer Anthony Doerr

  1. Gostei das informações. Já li o livro Toda Luz que não podemos ver e agora .edtou lendo Quatro Estações em Roma e nele o autor comenta que edtA escrevendo um livro sobre a França durante a guerra e queria saber se era esse mesmo.

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