[O RODÍZIO CRIATIVO]

Por Pedro Gabriel

3 / março / 2015

coluna 03.03

Alguém aqui já conseguiu concluir um raciocínio lógico em algum restaurante que sirva rodízio? E não estou perguntando se você já discursou sobre Deleuze, Ricoeur ou Proust com seus amigos numa mesa de domingo. Um simples “e aí, como foi seu fim de semana?” nunca pode ser dito de primeira. A pergunta vem sempre em picadinhos, como se fosse uma carne de segunda.

Sempre que volto para casa depois de me empanzinar em um desses carnavais fora de época (afinal, rodízio também é a festa da carne), a sensação que tenho é que esse sistema não quer me abandonar e decide entrar no táxi, entrar no elevador, tomar sal de fruta e invadir meus pensamentos sem pedir licença. Suspeito até que o garçom se esconde em algum canto do meu sistema neurológico e fica à espera da hora certa para dar o bote com sua bandeja prateada e sua faca afiadíssima. E não adianta apontar mentalmente para o cartão verde ou vermelho, ele sempre vai encontrar um jeito educado de avançar o sinal para se enfiar na sua conversa. Mesmo quando esta for um monólogo interno, reflexivo — daqueles de dar inveja ao silêncio dos monges tibetanos mais espiritualizados.

O meu fim de semana foi mais ou menos assim:

“Sábado eu estava me sentindo meio maminha recheada com queijo? então resolvi descer para caminhar um pouco com meu leitão à pururuca? No passeio, encontrei um grande baby beef? de infância. Papeamos sobre a vida, o tempo e sobre aquela sobrecoxa de frango? que o havia abandonado logo após o casamento. Ele desabafou, chorou, fez revelações muito polentas cremosas com manteiga derretida? soltou um monte de fraldinha? Disse que ela tinha um imenso coração de galinha? e, para finalizar, mandou todo mundo tomar no cupim, senhor? Falei para ele esquecer aquele lombo? Que a vida dele seria totalmente diferente se não tivesse encontrado esse espeto de codorna recheada, coberta com parmesão? Ele se acalmou, agradeceu os conselhos e prometeu nunca mais se envolver com aquela picanha?

Será que um dia também seremos invadidos por um rodízio criativo? Um espaço, não necessariamente físico, onde os seres mais imaginativos oferecem de bandeja uma seleção nobre de ideias invisíveis para quem tem fome de inovar. Quando sentirem que uma alma está assustada com a página em branco, eles interromperiam imediatamente os pensamentos confusos com um raciocínio macio, tenro e desossado, temperado com bastante sal grosso para afastar o ócio. Na ausência de uma boa ideia, Neil Gaiman apareceria com um discurso sobre arte. Faça boa arte! Na falta de um título bonito, viria António Lobo Antunes e encontraria algo tão sonoro quanto Eu hei-de amar uma pedra ou O arquipélago da insônia ou ainda Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? Na incapacidade de encontrar um verso profundo, Drummond surgiria com uma série de palavras sensíveis.

Inspiração nada mais é do que enxergar essas ideias invisíveis que nos rodeiam todos os dias. Talvez por falta de tempo. Talvez por falta de vontade. Talvez por excesso de preguiça em pensar. Talvez por excesso de horas vazias nas redes sociais… Acabamos por preferir não socializar com elas, deixando-as livres para procurar uma outra alma digna para iluminá-las e, assim, torná-las visíveis ao mundo. Não falta inspiração, falta sensibilidade!

Enquanto esse dia não chega, uma alcatra malpassada, por favor.

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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Comentários

4 Respostas para “[O RODÍZIO CRIATIVO]

  1. Adoro TODOS os textos de Pedro Gabriel. Tenho todos os livros e a sensibilidade em sua escrita me encanta e me inspira a escrever também.

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