O instante antes de tudo

Por Clarice Freire

26 / março / 2015

26.03 - clarice freire

O instante antes de tudo. É ali onde moram todos os “ses”. Os conheço tão bem que às vezes penso que moram, na verdade, no sofá da minha sala. Aquele lugar mais surrado, mais usado, o meu favorito. É preciso muita intimidade para sentar ali, ou não conhecer nada das minhas regras. E os meus “ses” as conhecem muito bem.

O instante antes de partir, por exemplo. E se eu não fosse? Se eu não quiser voltar? Moram lá.

Nas cócegas dentro do peito, fica o instante antes do riso aberto. E se eu preferisse me vestir de melancolia fechada em meio a essas risadas tolas, pra você me ver melhor?  Ou prestar atenção em mim, preocupado? Estes “ses” são um tanto carentes.

Na horizontal, está o instante antes do sono. Este é o local de moradia favorito de todos os “ses” do dia inteiro. Aparecem em uma enxurrada, apressados e desorganizados. Se não fosse hora de dormir, seria necessário um grito agudo para se calarem. E se eu tivesse acordado mais cedo? Certamente haveria tempo de terminar todos os meus planos dos “ses” de ontem, antes do sono passado.

Mas e se eu tivesse coragem? E se eu fosse? E se eu soubesse perder? Ah, se eu não temesse sofrer. Eu seria forte. Estes moram no instante antes de assumir. E sumir.

O antes de seguir em frente também é um instante muito procurado pelo mercado imobiliário dos “ses”.  No caso, seria “e se eu desistir” quem pediria moradia. Que bom, neste caso, moradia temporária. Assim esperamos, otimistas.

É ainda um mistério quais são os “ses” inquilinos do instante antes de amar.  São infinitos e tão mutantes que é difícil conhecer o rosto de algum. Ali moram “ses” passageiros, apressados, pesados, maneiros, preguiçosos, ligeiros e todos mudam de ideia, de cara, de vontade. Acredito que o conhecimento deste instante é particular demais. E se eu disser? Pra mim, o instante antes de amar já é amor.

O instante antes. Onde a lógica do presente não faz o menor sentido, porque nele metade de mim é agora e a outra já é amanhã. Lá tudo se decide, lá ainda é possível mudar, lá tudo parece líquido ou gasoso, depende. A pausa do passo para frente ou para trás, aquele segundo congelado naquele filme do Tim Burton, com as pipocas que alguém derrubou flutuando no ar e o mundo parado.  Somente eu me movimento na direção para onde quiser direcionar os pés. E lá vamos nós para o instante depois.

É tão vento esta fração de tempo, quem se lembra do instante antes?

Este lugar dos “ses” e do que poderia ter sido.

Deve ser por isso que ele é um segundo tão fácil

de ser esquecido.

 

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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