Bastidores

Minha vida em 50 tons

31 / março / 2015

Por Nina Lopes*

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Ter que escolher aos dezessete anos o que fazer pelo resto da vida não é uma tarefa fácil. Eu nunca soube o que responder quando me perguntavam o que queria ser quando crescer. Depois de muito pensar, decidi fazer Comunicação Social. Na faculdade, me encantei pelo curso de Produção Editorial. Trabalhar com livros era um sonho. Como eu não tinha pensado nisso antes?

Acabei conseguindo um estágio na Editora Intrínseca. Sim, eu ia trabalhar lendo histórias como as dos personagens que já tinham marcado a minha vida, como Liesel e Rudy, Bella e Edward, Nora e Patch, Emma e Dex! Em 2012, surgiram Ana e Christian, e então pude acompanhar de perto a produção de um best-seller.

Nesse mesmo ano, eu precisava entregar minha monografia de conclusão de curso na faculdade. Não tive dúvidas quanto ao tema: queria falar sobre esse best-seller, porque campeões de venda me fascinam e, porque, como não poderia ser diferente, em 2012 o mercado editorial brasileiro foi marcado pela publicação de Cinquenta tons de cinza, a trilogia mega-seller que se transformou em um enorme fenômeno mundial e sobre a qual, bem ou mal, todos comentaram. Não se falou em outra coisa. O livro bateu recordes de vendas. E quando um livro para o mundo, é preciso parar para entendê-lo.

Sempre fico muito curiosa quando recebemos aqui na editora uma obra que já é um grande sucesso em outros países. Lembro até hoje o e-mail avisando que uma trilogia havia acabado de entrar na nossa programação. Logo começou o burburinho aqui na Intrínseca. Querendo ou não, Cinquenta tons desperta a curiosidade de todo mundo. E esse foi o primeiro sinal do que viria a acontecer: a história que foi discutida, lida, criticada e amada em todos os cantos do mundo, também seria lançada no Brasil. Eu não via a hora de começar a ler (antes de todo mundo, o que, sinceramente, acho algo incrível).

O processo de edição de um livro é cuidadoso e atencioso, e demanda pesquisa e dedicação de todo mundo que participa das mais diversas etapas de produção. Depois do lançamento veio uma das partes mais legais: acompanhar a repercussão de Cinquenta tons. Não tem nada mais especial do que pegar um ônibus e sempre encontrar uma pessoa lendo aquele livro no qual você e toda a equipe se dedicaram tanto, assim como entrar na livraria e encontrar o livro em destaque, passar na banca de jornal e ver que os principais veículos estão noticiando todo aquele sucesso, ouvir a obra ser citada em todas as rodas de conversa, ligar a TV e assistir aos mais diversos programas falando do livro, acessar as redes sociais e ver as pessoas postando suas impressões, querendo saber quando o próximo livro vai ser lançado…

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Foto: Guilherme Lima

Isso tudo faz valer a pena ter ficado procurando a tradução mais adequada para cada termo sadomasoquista, ter lido e relido com toda a atenção para ter certeza de que não ia passar nenhum errinho, de que o texto estava bem claro para o leitor e de que nenhuma parte da história fugia do original. (Tudo isso enquanto a gente também suspirava por Christian Grey, é claro.)

Mas eu tinha outro desafio: levar Cinquenta tons para o ambiente acadêmico. Durante minha pesquisa, li várias entrevistas e percebi que as mulheres continuam se encantando com histórias de amor clássicas, mas que trazem uma versão moderna do príncipe encantado, da mocinha e da vilã.

Além disso, encontrei vários exemplos, não muito antigos, que nos mostram que romances eróticos publicados de forma clandestina e anônima são recorrentes ao longo da história. Muitos autores queriam evitar ser criticados ou perseguidos, por isso a clandestinidade por muito tempo foi uma opção para essas obras de conteúdo adulto.

Apesar de contestados, esses livros, além de entretenimento, também são documentos dos costumes de determinada época. Tanto o conteúdo quanto sua aceitação pelo público evidenciam pensamentos, ideais e comportamentos da sociedade. Cinquenta tons colocou em destaque um gênero que por muito tempo esteve à margem e, além disso, realmente acredito que o fato de atrair tantos leitores faz com que esses mega-sellers funcionem como estímulo à leitura, formem novas gerações de leitores ou nos façam redescobrir o prazer do livro.

Não é fácil abordar temas polêmicos, mas fui defender minha monografia com chicote, gravata e algema nas mãos, e, acreditem, tirei dez! Em determinada parte de Cinquenta tons de cinza, Ana diz que Christian a enche de certezas e depois a cobre de dúvidas. Na minha vida foi o contrário: no início eu estava cheia de dúvidas, mas depois só encontrei certezas (e a minha própria história para contar).

Leia outros textos da equipe da Intrínseca:
Keep YA Weird (ou a arte de fazer livros incríveis), por Talitha Perissé
Sobre livros e anjos, por Sheila Louzada

 

Nina Lopes, 23 anos, é editora assistente no setor de ficção da Editora Intrínseca e é dessas que se apaixonam pelos personagens dos livros que lê.

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Comentários

22 Respostas para “Minha vida em 50 tons

  1. Ah que lindo, amei demais esse texto, expressou de forma clara o amor pela leitura e o poder que ela tem sobre nós que permitimos entrar a fundo em cada história e viver os sonhos, medos e anseios dos nossos personagens favoritos, eu também trabalho numa editora, porém infantil e tem sido ainda mais lindo ver o quanto a leitura impacta nos pequeninos e o quanto ela nos instiga a sermos mais interessantes para nós mesmos. Obrigada por compartilhar. E aliás amo a editora Intrínseca, cada livro que li me fez sonhar e viver um pouquinho mais dos sonhos dos meus personagens favoritos ^_^

  2. fico muito feliz em saber que mais pessoas conseguiram sentir a essência dessa história que vai muito além do erotismo e de submissão. conseguir enxergar em Christian coisas muito comuns nos dias de hoje que imaginamos. e saber que você conseguiu colocar isso em um ambiente acadêmico é realmente impressionante. parabéns!

  3. Estou no 3º período de Comunicação Social na UFRJ e doida pra chegar no 4º pra fazer parte desse universo gostoso de Produção Editorial. Sucesso na carreira, Nina. É por ver pessoas como você prosperando nessa área, e sendo feliz por trabalhar com o que ama, que a cada dia me sinto mais atraída pela profissão.

  4. E quando um livro para o mundo, é preciso parar para entendê-lo. que frase, vou guarda-la comigo, pq essa foi a frase mais original e significativa para livros extraordinários, parabéns e queria seu emprego.

  5. Sou aluna de Letras, revisora, e sonho em entrar para o mercado editorial. No entanto, me desculpe a autora do texto e toda a equipe envolvida na produção, mas os trechos que eu li de “50 tons de cinza” me deixaram decepcionada com a editora, que para mim sempre foi referência. Erros absurdos de português e de tradução são encontrados constantemente na obra, que na minha opinião já não possui uma escrita rica ou bem-feita. Espero encontrar no futuro outras obras da Intrínseca que sejam feitas com mais cuidado.

  6. Oi, Nathalia.
    Agradecemos muito o seu comentário Por favor, entre em contato com a gente sempre que encontrar alguma falha nos livros! Infelizmente, erros acontecem e estamos trabalhando para que isso não se repita nas próximas publicações/reimpressões. Se possível, envie o livro com os erros para contato@intrinseca.com.br

  7. Como faço para ter acesso a esse monografia? Sei que ficam nos sites das faculdades. Ele pode ser enviado a mim por e-mail? Estou realmente curioso. Grato desde já.

  8. Curso o primeiro ano do ensino médio e me identifiquei completamente com o primeiro e segundo parágrafos. Sempre que me perguntam o que eu quero cursar eu procuro a melhor forma de dizer que não sei. Recentemente descobri o curso de Produção Editorial e percebi que isso se encaixava em mim, sempre fui apaixonada por livros. Personagens como Patch e Nora, Liesel e Rudy, Emma e Dexter, além de Hazel e August, Melanie e Jared e August Pullman deixaram em mim pedaços de si. Além disso, sempre fui uma fã da editora Intrínseca e desde que descobri esse curso desejei trabalhar na editora. Porém, continuava incerta sobre o que faria, mas seu texto me inspirou bastante e agora tenho certeza de que também quero sentir essa felicidade ao ver um livro no qual você contribuiu para que fosse construído marcar outras pessoas, muito obrigada.

  9. Amei o texto. E confesso que queria fazer isso na minha vida. Sempre almejei ser engenheira, arquiteta.. Mas de uns tempos pra cá percebi que não é isso que eu quero mais. Acho incrível fazer aquilo que você gosta, e eu amo cinema, amo livros e pensei: pq não trabalhar com eles? Espero conseguir alcançar meus objetivos e conciliá-los a minha família.

  10. Comprei um livro editado por voces o 50 tons de liberdade veio faltando pagunas como posso trocar esse livro

  11. Adorável artigo, merecedor de muitos elogios, não só como fonte de inspiração a tantos jovens os quais almejam associar seus talentos individuais a bem sucedidas carreiras, mas também a muitos outros profissionais ligados a áreas de edição, vis-à-vis sua inequívoca eloquência. O universo linguístico é capaz de abrir muitas passagens desafiadoras em nossos trajetos profissionais e pessoais, quebrando tabus e oferecendo uma abrangente gama de oportunidades literárias, ampliando horizontes de inúmeros leitores. Após ter concluído bacharelado em Letras no Brasil há 30 anos e adicional mestrado no exterior há 25 anos, aprecio comparar traduções de livros e filmes, algumas vezes em distintos idiomas. Em várias ocasiões, deparo-me com edições simplistas, as quais não retratam as obras originais com dignidade ou autenticidade. No caso da tão concorrida trilogia “Fifty Shades of Grey”, completei a leitura em inglês antes de sua publicação no Brasil. Fiquei intrigada sobre a edição brasileira, pois tornava-se claro que sua tradução não seria uma fácil tarefa. Surpreendentemente, após ler os livros “Cinquenta Tons de Cinza” traduzidos pela Editora Intrínseca, além de deparar-me com um excelente trabalho editorial, fui capaz de, através da versão em língua portuguesa, apreciar a obra total com maior profundidade. Parabéns à Editora Intrínseca e a seus times de tradução, revisão e edição pelo excelente resultado. Portanto, desculpe-me discordar dos comentários da Nathalia, pois os trechos da trilogia em questão, os quais foram apreciados por muitos leitores da língua portuguesa, fazem total jus à obra original. Espero que, no futuro, a Nathalia possa vir a atingir tal nível linguístico, tornando-se uma grande profissional da área.

  12. Olá!
    Eu fui uma das que descobriu o verdadeiro prazer da leitura com a trilogia 50 Tons no final de 2012… Desde então não consigo ficar mais de 3 dias sem um livro para ler… Para mim esse trabalho da Intrínseca foi mais que especial!
    Eu gostaria de ter acesso a monografia da Nina, sou professora universitária, trabalho na área de administração e gostaria de conhecer esse trabalho acadêmico.
    Parabéns Nina e toda equipe Intrínseca que com esse trabalho despertaram em mim o verdadeiro gosto pela leitura!!

  13. Nossa! Muito lindo o que você escreveu! Ler livros maravilhosos antes deles chegarem as bancas deve ser realmente top. Também tinha dúvida sobre que curso fazer, mas fiz Letras que me deixa mais perto de minha paixão que é a literatura, seja a clássica ou a moderna. Amo artigos assim. Profissionais como você motivam qualquer pessoa a realizar bem o seu trabalho. E a Intrínseca é minha editora favorita desde The Twilight Saga.

  14. Achei lindo,fez eu me apaixonar mais e mais pela
    Leitura e ainda mais pelo 50 tons….

  15. Anastasia é o retrato da mulher loucamente apaixonada capaz de fazer qualquer coisa para “agradar” seu homem, é uma história que pode condizer com a realidade de um lado e por outro mostra isso como o poder da autoridade e riqueza perante a uma simples moça.

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