Biografia de um livro: Não parar mais!

Por Miguel Sanches Neto

9 / março / 2015

O romancista decide não esperar mais e se entrega à tarefa de colocar uma palavra depois da outra, parágrafo após parágrafo.

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1º. de janeiro de 2013 – terça-feira
Leio a excelente biografia de Getúlio escrita por Lira Neto e trechos dos diários de Vargas. É mais para compreender o contexto, mas sempre encontro uma ou outra questão que pode ser aproveitada no romance. A pesquisa do escritor é diferente da pesquisa do historiador. Preciso localizar episódios que rendam ficcionalmente.

9 de janeiro de 2013 – quarta-feira
As leituras para o novo romance se avolumam. Há um momento em que temos de começar a escrever mesmo sem ter lido tudo que queríamos ler.

13 de janeiro de 2013 – domingo
Enquanto não começamos a escrever um livro, ele se multiplica em muitas variantes em nossa imaginação. Suas possibilidades ficam em aberto. Ele cresce para todos os lados. Escrever é restringir. Criar fronteiras. Cercar a história.

31 de janeiro de 2013 – quinta-feira
Em Porto Alegre, o romancista Luiz Antônio de Assis Brasil me levou ao Palácio Piratini [um dos cenários do romance]. Visitei todos os cômodos, a ala administrativa e a residencial – não mais usada para este fim. Mostrou-me as passagens dos túneis sob o palácio – são discretas e talvez servissem para fugas. Mas vou ampliá-las no romance.

2 de fevereiro de 2013 – sábado
À tarde, percorri o Centro de Porto Alegre, tomando nota de alguns detalhes para uma melhor compreensão do cenário em que os personagens se moverão. Descobri pequenas coisas que servirão muito.

Comecei hoje, no Chalé da Praça XV, o primeiro capítulo do romance. Não parar mais!

5 de fevereiro de 2013 – terça-feira
Gastei a madrugada com o primeiro capítulo, que ficou com 2.500 palavras. A previsão é que a história toda tenha 80 mil. Não vou correr com a escrita. Quero revisar mais ao longo do processo para diminuir o trabalho de finalização.

Estava com medo de não conseguir dar conta deste romance. Mas a própria escrita vai abrindo caminhos narrativos. Não tenho grandes anotações e esta situação mais livre é, inicialmente, assustadora. Mas basta me entregar ao livro, exatamente o que estou fazendo agora, e pedir para que ele se faça.

6 de fevereiro de 2013 – quarta-feira
Fiz mil palavras hoje. Ao final de cada bloco, passo um tempo imaginando o próximo, totalmente às escuras.

7 de fevereiro de 2013 – quinta-feira
Desde a madrugada trabalhando no romance. Está com 5 mil palavras. Vamos ver para onde os meus nazistas me levam. Não se pode ter medo de um assunto nem podar as ramificações espontâneas de uma história.

9 de fevereiro de 2013 – sábado
Ontem o romance avançou pouco. Uma cena na Alemanha. Hoje, não escrevi nada, mas pensei o próximo episódio. Neste final de semana, uma grande incerteza.

link-externoLeia a coluna anterior de “Biografia de um livro”: Sonhando o romance

Miguel Sanches Neto nasceu em Bela Vista do Paraíso, no interior do Paraná. É autor de seis romances, além de livros infanto-juvenis, contos e ensaios. Seu romance A Segunda Pátria foi publicado em 2015 pela Intrínseca.

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