[A SENSIBILIDADE NÃO TEM CONCORRÊNCIA]

Por Pedro Gabriel

17 / março / 2015

17.03 -colunapedro

No mundo, a cada segundo, alguém cria algo novo ou dá uma nova roupagem à uma velha ideia. O ser humano nasceu para dar forma aos sentimentos, às sensações, ao inconsciente. Quando falo em criar, não falo necessariamente em obras históricas de artistas consagrados expostas em museus mundo afora. Não falo somente de poetas, músicos, pintores, escritores, roteiristas. Falo também de pessoas que existem mundo adentro. No mundo corporativo, na civilização do terno e gravata, os criativos também estão revolucionando o método de trabalho das empresas. Sim, existe alma nas corporações!

A criatividade sempre salvou o mundo. Desde o Período Paleolítico, com o uso de ferramentas simples usadas para a caça e a defesa, para produzir roupas ou dar luz ao fogo para enfrentar os longos invernos, as mentes criativas sempre movimentaram o avanço da humanidade. Hoje pode até parecer bobo, mas, para a época, uma simples pedra talhada era uma tecnologia de ponta, comparável à popularização da Internet. Foram elas que desenharam o início da inovação. Foram elas que criaram as primeiras possibilidades de globalização. Eu ainda acho as pedras afiadas mais úteis que as redes sociais. Mas, sem a Internet, você não leria essa afirmação: as pedras afiadas foram mais importantes que a Internet. Depois, a invenção da roda permitiu que o mundo pudesse andar para frente, desenvolver qualquer nova experiência humana. A fotografia, a luz elétrica, o ar-condicionado (santificado seja Willis Carrier!) e tantas outras criações humanas permitiram que a humanidade sempre encontrasse uma forma de se manter viva (não necessariamente evoluindo).

Acredito que, hoje, depois de milhões de anos de downloads de ideias, o grande desafio do ser criativo é saber como se diferenciar nessa multidão de mentes criativas que nascem diariamente; como sobreviver a esse bombardeio de informações; enfim, como dar uma luz à uma ideia mais bacana do que as milhões de outras ideias que estão em gestação na mente do seu vizinho, da sua amiga, daquele senhor que lê o jornal no metrô. A grande pergunta que você deve se fazer é: qual é o seu diferencial? Falar inglês? Dominar o pacote office? Quinze anos fazendo as mesmas tarefas no mesmo cargo? Isso tudo é muito igual à maioria dos seus concorrentes criativos. Quase todo mundo que teve as mesmas condições de vida que você sabe falar mais de um idioma. Quase todo mundo que estudou nas mesmas condições que você tem o domínio dos mesmos diferenciais. Quase todo mundo que convive no mesmo cerco cultural que o seu tem as mesmas condições de ter acesso às mesmas informações. Isso é ótimo para nosso enriquecimento pessoal. Mas não é nada bom quando o mundo busca cada vez mais características cada vez menos presentes nos seres humanos: a sensibilidade, a percepção e, principalmente, a originalidade. Seja original. Olhe para dentro de si. O mundo inteiro pede para pensar fora da caixa; eu digo pense dentro da sua caixa: ela é o seu mundo. Lamento informar: pensar fora da caixa já virou mesmice.

Mas, então, o que você tem de fato de diferente? A sua história! Originalidade, na minha opinião, é entender tudo o que já foi criado, é absorver o que o mundo nos dá e associar todas essas informações com o seu banco de memória, com sua dose de sensibilidade, com sua percepção de mundo. Ninguém pode plagiar a sua vida. Ela não é uma camisa preta, vendida a R$19,90 em um shopping center. Ninguém pode copiar a sua infância. Ela não é um pote de plástico com tampa roxa, onde a humanidade guarda o arroz de ontem. Ninguém pode imitar a sua memória. Ela não é um pendrive de 64G, nem pode ser encontrada em qualquer caixa de supermercado a preço acessível. Sua vivência não tem preço. Sua experiência tem um custo imensurável.  Ninguém pode dar ctrl c + ctrl v no que você sente. A sua sensibilidade não tem concorrência.

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio.
Pedro escreve às terças.

VER TODAS AS COLUNAS

Comentários

8 Respostas para “[A SENSIBILIDADE NÃO TEM CONCORRÊNCIA]

  1. Eu sempre quis abraçar o mundo, sabe? Sempre pensei que um dia ia fazer algo que ajudasse a humanidade, alguma coisa que de alguma maneira fosse útil para alguém. Acho que nunca consegui fazer isso. Mas eu fico feliz de ver que outras pessoas fazem. Ultimamente eu tenho exercido a arte de escrever, escrever alguma forma de poesia e tenho lido bastante também, isso é bom? Sim, tem sido ótimo. Isso aconteceu porque pessoas como você Pedro Gabriel tem me inspirado. Acho isso lindo de escrever algo que vai tocar outra pessoa de alguma maneira, seja uma palavra, transmitir um gás de coragem, um desejo de perder e enfrentar alguns medos. É disso que eu gosto, acho incrível, trabalhar com as palavras e torná-las pensamentos que vão se tornar inspiração na vida de alguém.

  2. Como diria na minha terra: “pô nego, brocou!”. Sou baiana e tenho essa procura da criatividade e do olhar interior já há tempos…se eu disser que me identifiquei com o texto é pouco! Parabéns e sucesso!

  3. Excelente texto! Penso exatamente isso. As pessoas ficam achando que seu diferencial é algo que vem de fora, quando na verdade é o contrário. Todo mundo já aprendeu a pensar fora da caixa, o desafio agora é voltar pra dentro dela…

  4. Nossos pensamentos são vidas, precisam ser adubados, lapidados. Um dia vira um parto e parte para o mundo. Talvez, seja essa a única lembrança que podemos deixar para o mundo, o nosso gênio criativo.

  5. Lindo texto! Sensibilidade anda em falta neste comercio selvagem. Encontrar um ser que fique tocado, admirado, que seja capaz de reconhecer a sensibilidade do outro é coisa rara! Sensibilizacoes mutuas, por favor.

  6. Engracado. Ao ver o titulo e a imagem imaginei outra coisa- no ” lugar” sensibilidade nao ha concorrencia- pois neles todos somos !
    O que nao deixa de ser o que vc disse: se de dentro todos existimos criativamente-alem d concluirmos q somos unicos, podemos ” concluir”/ vivenciar, q de dentro tbm é possivel e real o encontro com o outro? Q de dentro e tap diferente mas tbm tao igual!
    Em q ponto nossaa historias se tocam? Em q lugar de mim esta vc e eu em vc? pq na minha “origibalidade” eu me torno mais humano . E vendo me siderente do outro sinto – me tao igual. Eu sou diferente, mas pertencente! (Acho q finalmente achei o q queria falar rs)
    Espero que tenha conseguido por em palavras uma sensacao q nao sei nomear. Q idealizo. A qual seu texto ne remeteu!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *