Voz de chuva

Por Clarice Freire

26 / fevereiro / 2015

credito  Américo Nunes

Crédito: Américo Nunes

Vou te dizer uma coisa que nunca disse antes.

Você tem voz de chuva, sabia? Chove quando você fala. Mas é um tipo muito específico de chuva. Daquelas que vêm do nada em um dia muito quente, quando o vento mais parece um bafo cálido que te dá sono, mas faz calor demais para conseguir dormir. E na verdade você nem está com sono, porque essas coisas normalmente acontecem aos domingos e este é um dia para se despreocupar com os compromissos das horas. Pois bem. De repente chove e até as gotas parecem cair preguiçosas, mas é como se o dia tivesse tomado um gole de café. Traz uma brisa de fumaça, desperta, sabe? Pois. Você tem voz dessa chuva.

Vou te confessar uma coisa também. Comecei dizendo que ia te dizer uma coisa que nunca te disse antes porque sei o quanto isso te prende a atenção. E olhe que prender qualquer coisa em relação a este seu ar avoado é quase engavetar o vento.

Você e sua curiosidade terrível.

Na verdade, hoje eu já nem sei mais se é puramente curiosidade ou um interesse tão sincero pelo que vou dizer que os olhos se arregalam como duas jabuticabas enormes, prendendo um pouco a respiração, como se me perguntassem: “o que você vai dizer pode me perder de você?”. É divertido por uns segundos. Mas só por uns segundos. Mais que isso seria crueldade e eu não suporto a ideia de ser cruel com você. Apesar de que nem sempre isso está em minhas mãos indecisas e inseguras. Me perdoe. Pelo que eu nem sei. Mas com certeza um dia eu vou te pedir perdão como nunca te pedi antes. Já me adianto de antemão.

Às vezes a sua voz chove torrencialmente, claro. Óbvio. Ninguém é de ferro. Você jamais seria de ferro. Mais fácil você ter sido feito de açúcar, apesar de que quando fala torrencial, poderia ser também de umas balas de chumbo. Mas não precisamos entrar neste mérito agora. Nesses dias eu prefiro entrar e fugir da tempestade. E mais: se fosse de fato de açúcar mesmo a sua matéria, uma voz de chuva torrencial seria um grave perigo. Haja paciência. Hoje não. Hoje eu quero somente te escrever o que nunca escrevi antes.

Quando faz sol na sua voz eu também gosto. Prefiro a primeira chuva que falei, mas voz de sol é importante quando as minhas torrentes é que estão caladas. Ultimamente minhas chuvas torrenciais têm se emudecido estranhamente. Você já viu gotas caladas? Eu já. E você, que vê o escondido, entende que é dia de voz de sol e me fala em letras de raios ultravioleta, ultravermelhos, ultra-azuis, ultraqualquercor que não se pareça com meu preto e branco. E eu fico tão agradecida. Todas as vezes, como nunca fiquei antes.

Vou te dizer uma coisa que nunca disse.

Você tem voz de chuva, sabia?

E eu fico de alma lavada

quando decido te ouvir.

 

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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Comentários

5 Respostas para “Voz de chuva

  1. Amei Clara..viajei nesse texto! Esse texto foi uma voz de chuva para mim e para muitos 🙂

  2. Texto maravilhoso, assim como vc Clarice <3 estou apaixonada.

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