Passagem

Por Clarice Freire

8 / janeiro / 2015

Coluna Clarice_ passagem

O que passa por mim não somente passa. Foi uma lei que criei no meu estado de direito. Como pode, meu Deus, um vento, brisa, alguém, coisa, divisa, passa por mim e não me avisa e ainda assim termina como veio: igual? Não pode. Não pela minha lei. Não, eu não entendo nada de leis, confesso. Mas as crio mesmo assim, na rebeldia e na ignorância. Simplesmente porque são minhas e as minhas leis quem dita, respeita ou negligencia sou eu. Eu quebro minhas leis o tempo todo. Você não quebre, por favor. É uma das leis para me amar. Eu sei que não é fácil, mas todas as leis têm suas belezas e feiuras. Por exemplo, esta sobre a qual falo a vocês.

O que passa por mim não somente passa. É proibido. Essa lei já foi fruto de uma ideia, foi promovida a sonho e desde lá se impregnou em mim feito perfume que entra na pele. Fiz um acordo de escambo com tudo e todos que passam por mim nesse espirro de vida: passou, levou um pedaço de mim, mas eu levo também. Ah, levo.

E isso é inegociável.

É quase um roubo mútuo, contudo, voluntário e com tudo.

Termina que hoje sou uma aparente normalidade tranquila, mas na verdade me tornei um grande depósito de passagens furtivas, demoradas, permanentes, de gentes, de estradas, de trens, gostos, casas e interior.

Como não transbordo?

Eu transbordo o tempo inteiro.

Mas distribuo riquezas que ganhei por aí,

muito de bom, pouco de ruim,

não precisa de dinheiro.

É só passar por mim.

 

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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