Gritei muito alto o silêncio e não deu para ouvir

Por Clarice Freire

29 / janeiro / 2015

29.01 - silence taize

“Mas não dá pra ouvir nada aos gritos, menina”, sempre dizia a minha mãe. E olhe que eu nunca fui de gritar em voz alta. Confesso que de alguma maneira me admirava bastante com essa capacidade que sempre tive em manter meus gritos — quase — bem caladinhos. Nem sempre são mantidos assim, claro. Alguns são rebeldes, fujões e espalhafatosos. Mais parecidos com uma outra parte minha, mais escondida, reservada apenas para aquelas companhias de longa data. Aquelas para as quais os nossos gritos mudos ou estridentes não têm a menor diferença. Às vezes me pergunto se elas são surdas ou possuem uma superaudição, essas companhias antigas. Mas não queria falar sobre os gritos, é sobre o silêncio esta coluna.

Você me perdoe, é que quando falo em um, penso de imediato no outro. Como irmãos gêmeos ou um casal inseparável, daqueles grudentos, que às vezes é até constrangedor dividir a mesma mesa do bar porque são quase uma criatura só. Pois. Não importa se são antagônicos ou aparentemente não possuem nada em comum, eles apenas não se separam. É o que penso sobre o grito e o silêncio.

Por estes dias decidi parar tudo, desligar a tomada, ir para um mosteiro e ficar em silêncio.

Estranho. Eu sei. Talvez ainda mais na minha idade, o que é uma pena.  Muita gente me olha torto quando conto: “mas você foi fazer o que por lá?”

Nada. Não fui fazer nada.

Absurdo, talvez, porque não fazer nada hoje em dia pressupõe ao menos distrações como um computador, um celular, internet, muita internet e alguns passeios sem compromisso por aí. Sim, isso é bom, essa sou eu, mas queria “não fazer nada” sem distrações por meros e curtos – longos – três dias para, calando a voz de fora, quem sabe, escutar a voz de dentro. E aí é onde moram os gritos que nos ruídos de sempre são inaudíveis. O susto é ver o quanto o silêncio, a princípio, é barulhento. São milhares os meus moradores e eles adoram falar ao mesmo tempo, em voz alta, quase uma família italiana comendo macarrão. Ou a minha mesmo, no Natal.

Persistindo um bocado para não desistir, até entre esses moradores o assunto se acaba e a maioria das falações – se descobre – nem tem tanta importância. Pronto. Os sussurros, mais tímidos, começam desconcertados a soltar algumas palavras murchas. Com mais intimidade, aumentam o tom de voz e é como ouvir a noite, com todos os grilos que cantam despercebidos. E você mesma vira uma nova amiga a ser conhecida. Senta-se a mesa com ela, pede-se o café quente. Olha-se com intimidade (existe coisa mais atraente que olhos se olhando cúmplices?) e delicia-se com as novidades que os sussurros gostam de contar secretos.

Uma observação: não é porque são sussurros que são discretos.

O silêncio até parece gritar alto, mas não dói aos ouvidos.

O que dói, algumas vezes, são as verdades que ele diz. Ah, diz. E não é mesmo fácil, confesso.

Mas não existe nada que rime mais com liberdade

do que verdade.

Isso também é.

 

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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Comentários

2 Respostas para “Gritei muito alto o silêncio e não deu para ouvir

  1. “…E você mesma vira uma nova amiga a ser conhecida…” Quando fico em silêncio, me surpreendo com o que minha voz interior diz .Incrível sua coluna Clarice !

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