Eu prefiro amar

Por Leticia Wierzchowski

7 / novembro / 2014

Coluna32_Eu prefiro amar

O amor é uma coisa tão doida, tão viva, tão inquieta. Qualquer tipo de amor. Amor carnal, amor maternal, amor fraterno. O amor está sempre ali, palpitando, palpitando, como um outro coração dentro do coração da gente. O amor não é cerebral, ele apenas corre no sangue, lateja, provoca reações inesperadas, surge alopradamente na esquina de um momento e transforma tudo. O amor faz a gente sair do grito para o beijo, e do beijo para o grito. O amor não é fácil, é voluntarioso em sua ânsia, mas cheio de sabedoria na sua perseverança. O amor pode amornar, serenado durante meses, até mesmo anos, e depois tornar a crescer, expandindo-se da semente escondida, ainda viva, apenas latente. Como um desses vulcões adormecidos que, de repente, entra em erupção em fogo e lava, sacudindo tudo ao redor.

O ódio é irmão do amor, o seu negativo. Que palavra feia“, dizia minha avó. Traz más energias“. E a gente gastava a palavra: eu odeio isso, eu odeio aquilo – a professora ranzinza, a chuva no sábado, o castigo da mãe. Era fácil odiar, assim como era fácil amar. Uma coisa que não existe no coração da criança (se ela é saudável e vive a sua vida infantil) é o rancor. Criança não sente rancor. Rancor é o ódio a frio – muito mais terrível. É o ódio que resistiu, cristalizado. Desde sempre, respeitei o rancor como quem respeita um vírus grave – com medo.

Enquanto o amor e o ódio são vivos e estão em constante mutação, enquanto o amor e o ódio são fogo que arde, o rancor é a cinza. O rancor é uma espécie de fim em si mesmo – eu já vi o rancor nos olhos de algumas pessoas, e ele nubla a íris como uma doença. Sai pra lá, rancor. Prefiro amar, prefiro até mesmo odiar, eventualmente, infantilmente, a abrigar em mim o famigerado rancor. Na longa e sinuosa estrada das emoções humanas, o rancor é o fim do caminho.

 

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

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Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre e estreou na literatura aos 26 anos. Já publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. É autora de SalNavegue a lágrima e de A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.
Leticia escreve às sextas.

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