[A poesia está na mesa!]

Por Pedro Gabriel

4 / novembro / 2014

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Esses últimos dias, eu tive a oportunidade de participar do Fórum das Letras, na cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Entre ladeiras e oratórios, igrejas suntuosas e bucólicos cães, sotaques carismáticos e chopes artesanais, pude entender um pouco mais sobre o que está acontecendo no mundo literário.

Escrita em transe foi o tema central abordado em praticamente todas as conversas. Autores nacionais consagrados, personagens centrais da história do Brasil e figurões típicos daquela região sentaram para debater sobre essa fase de transição que o mundo e, mais especificamente, a literatura está passando.

Pela primeira vez, tive a oportunidade de conversar com o público sobre temas específicos que envolvem a minha arte sem precisar ficar atento aos ponteiros do relógio. Nas noites de autógrafos fica impossível conversar com todo mundo que comparece. E é mais uma troca de carinho e agradecimento. Já ali, houve uma troca de ideias determinadas, definidas. Pude mostrar que por trás de cada postagem virtual existe um autor real. Pude atestar que por trás de cada perfil de seguidor existe um leitor realmente interessado na minha forma de expressão. Tive duas comprovações que, na teoria, podem parecer óbvias:

1) O autor e o leitor também existem na internet e têm os mesmos sentimentos em relação à palavra do que qualquer outro autor ou leitor;

2) A Literatura de Internet não existe. Existem alguns formatos que funcionam melhor nos meios digitais, mas literatura é literatura em qualquer plataforma, em qualquer meio, de qualquer forma. Dou a minha palavra!

Talvez seja essa a dificuldade de definir onde se encaixa a minha expressão. Me perguntaram sobre isso. O que eu sei é que desenho palavras em guardanapos. Mas, Pedro, essas palavras desenhadas são poesia? Você escreve autoajuda? São versos isolados? É poesia concreta? É literatura de internet? Sem querer parecer indelicado, eu não me preocupo com definição ou categorização do que faço.  Eu faço o que sou. Eu faço o que sinto. Não me defino. Se para alguns sou isso, serei isso para alguns. Se para outros sou aquilo, serei aquilo para outros. Eu divido com o mundo o que eu quero multiplicar. E vou além: não me considero poeta, nem ilustrador. Sou o que acontece entre os dois. Desenho palavras, apalavro desenhos e coloco a minha verdade em cada sentimento exteriorizado. Talvez por isso aconteça tamanha identificação com o meu leitor ou com a minha leitora.

Dividi uma mesa de debate com Wagner Merije, Mariana Carvalho, Nino Stutz e Clarice Freire. Como entrada, pedimos que as pessoas prestassem mais atenção ao que acontece na internet e que a poesia que nasce lá não nasce exatamente lá. Ela nasce nos poetas: esses seres conectados com a sensibilidade. O prato principal veio com a questão dos direitos autorais no mundo virtual e a importância de creditar o nome do artista às suas obras. A internet não é terra de ninguém. A arte compartilhada naquele espaço tem dono. Por mais que ela pertença um pouquinho a cada um que se sinta tocado, ela tem um criador por trás.  Ouvi muito. Prestei atenção em cada fala. Me senti importante em alguns momentos. Pensei mais do que falei. Me descobri mais do que me revelei. O aprendizado veio como uma sobremesa bem calórica. Daquelas que a gente guarda para sempre o sabor de ter ousado experimentar.

Ah, na verdade foram três comprovações:

3) Ganhei dois quilos de poesia… Que pretendo nunca mais perder.

 

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio.
Pedro escreve às terças.

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Comentários

6 Respostas para “[A poesia está na mesa!]

  1. Como é bom poder “esbarrar” em poesias toda vez que acesso minhas redes sociais. Não sei se Pedro Gabriel ou Clarice Freire foram pioneiros ao usarem a internet para expor seus registros poéticos, mas sei que inspiraram muitos a o fazerem. Daqui a pouco seguirei a mais poetas do que gente! Sim, foi isso mesmo que eu quis dizer. Porque, para mim, poetas são uma espécie de extraterrestres certamente enviados por Deus para transformar esse mundo caótico em um lugar mais agradável de se viver!

  2. Não se defina, na vida os rótulos que devemos considerar, são aqueles que fazem de você o que és, e mesmo assim, os únicos que valem a pena são os que você mesmo se auto-entitula. Você é poesia. Eu digo isso, mas tu mesmo já disseste ao mundo antes com tua arte.

  3. Cara, que bom que vocês curtiram tanto a vinda à Ouro Preto. Fiquei muito feliz por conhecer você e a Clarice tão de perto e por ter a oportunidade de ver vocês falando um pouco mais sobre o trabalho de cada um (mesmo que pra isso fora preciso perder algumas horas no trabalho haha). Se eu já apreciava essa arte literária, passei a apreciar ainda mais! Voltem logo! Teremos muitos outros eventos para receber vocês de braços abertos 🙂

  4. Eu adoro sua sensibilidade , seu toque de simplicidade … a sua poesia deixa em min em eles um pouco de você a cada dia

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