Adriana Falcão

Existência

20 / outubro / 2014

coluna 3final _ post

Uma desgraça vive abraçada comigo, pra se consolar dela própria.

Todos os dias brigo com ela.

Sai, desgraça, deixa eu viver a minha vida.

Ela argumenta que não pode sair porque faz parte de mim. Tenho ganas de me decepar, mas não sei por onde começo. Então me faço de vítima. Logo eu? O que foi que fiz pra merecer isso? Alguma explicação plausível?

Ela não para de falar. Diz que é vital, que é necessária, que pertence ao mundo tanto quanto céu e nuvem, e tal, e coisa. Quando vejo, perdi a hora, com a conversa. Está vendo, dona Desgraça? Quer derrotar a minha vida inteira? Não se trata de derrota, ela logo me corrige, a questão é só a luta.

Às vezes, eu canto pra ela.

Às vezes, ela até gosta.

“Once there was a way to get back homeward…”

Um Beatles sempre cai bem. Tem hora inclusive que ela chora.

Quando vou dormir, a desgraça se aninha ao meu lado. Sonhamos juntas. Acontece que ela acorda antes de mim e se põe a me passear feito uma lagarta de fogo. É ao acordar que minha desgraça me deixa mais inviável.

Reclamei com o meu psiquiatra. Pedi colo de filha. Escrevi livro, roteiro de cinema, programa de televisão.

Finalmente, caiu a ficha. Eu sou apenas mais uma. Todo mundo tem uma desgraça abraçada a si mesmo, ela nem é esse monstro todo, e o nome dela não é desgraça, é existência.

“Sleep pretty darling, do not cry. And I will sing a lullaby.”

 

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Comentários

2 Respostas para “Existência

  1. Grata, Adriana. Já mostrei pra minha desgraça aqui, pra ver se ela baixa a bola de se achar maior que eu as vezes. Gostei do seu livro também, porque sou fã do Amor…outro (por vezes inconveniente) que me acompanha…Abraços!

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