De onde vêm os romances

Por Leticia Wierzchowski

17 / outubro / 2014

Coluna 30_De onde vêm os romances

Imagem da animação “Os Fantásticos Livros Voadores do Senhor Lessmore”.

Aventurei-me recentemente a dar um curso sobre os caminhos para escrever um romance. Digo que me aventurei porque escrever, para mim, sempre é assim: uma grande, assustadora e divertida aventura. Um romance, para nascer, não tem regras. Ele sempre nasce de alguma coisa incorpórea – uma ideia, uma imagem, um sentimento, uma voz – e é desse nebuloso e pulsante centro nevrálgico que ele se desdobra, cresce, ganha contornos, cenas, personagens e um drama.

Todo escritor, disse o grande Orhan Pamuk, é um corredor de maratonas. É preciso fôlego e persistência para enveredar, durante meses e anos a fio, pelos caminhos dúbios e misteriosos da escrita de ficção. É preciso serenidade para respirar fundo e dar tempo à história, tempo suficiente para que ela cresça, ganhe corpo e nasça. Parafraseando outro escritor – dessa vez, a nossa Raquel de Queiroz –, a literatura é como uma gestação: aquilo fica crescendo dentro da gente, incomodando, ganhando espaço, até que um dia, quando está pronto, força e sai para o mundo.

Fiquei alguns dias diante do meu grupo de alunos, nós todos aventureiros, mais ou menos calejados por este mar da ficção. Além dos muitos conceitos, acima das chatas nomenclaturas, regras e modos do fazer literário, a ideia que eu quis plantar naqueles corações era apenas a da alegria, a do prazer que deve permear a escrita. Porque ninguém escreve um romance se essa tarefa não lhe for de algum modo reveladora, salvadora ou transformadora – escrever é resolver ou transformar a vida ou, ainda, recriá-la. Eu escrevo porque sou mais feliz quando tenho meus personagens e aquele outro mundo, cujos contornos vão se expandindo dentro de mim ao longo do processo, a ponto de tudo isso passar a ser uma outra realidade, um contraponto para esta minha vida cotidiana e comezinha, com as suas belezas e as suas chatices mis. Um romance sempre passa pelo cérebro do seu escritor, mas é do coração que ele nasce.

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

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Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre e estreou na literatura aos 26 anos. Já publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. É autora de SalNavegue a lágrima e de A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.
Leticia escreve às sextas.

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