Adriana Falcão

A gente nunca acha que a vida dos nossos pais pode virar um livro

2 / outubro / 2014

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A gente nunca acha que a vida dos nossos pais pode virar um livro.

Mesmo que seja uma história muito boa.

E mesmo que a gente escreva livros.

Eu sabia que a história de um casal tão intenso quanto os meus pais, que termina com ele se matando, e ela morrendo de overdose, era bonita. Eu vivi essa história. Mas só tive a ideia de escrever o livro há uns três anos, quando estava com as minhas irmãs e a gente resolveu abrir o famoso baú de recordações para reler as cartas deles. Lembramos de fatos engraçados, outros difíceis, outros malucos, rimos e choramos, foi uma noite inesquecível.

Foi uma vida inesquecível.

Meu pai era o meu herói, como são todos os pais muito bacanas que existem. Era charmoso, inteligente, gentil, moderno, enigmático. Calado e pensativo. O que já era um indício da depressão que se agigantaria depois era só um charme a mais, quando eu era criança. Ah, ele assoviava sempre, ótimas canções. E, nas brincadeiras de esconder, escolhia lugares impensáveis, cada um mais doido do que o outro. O nome dele era Caio. Ele sorria com a boca torta e a gente achava lindo.

Minha mãe foi a pessoa mais interessante que já conheci. Inteligentíssima, cultíssima, engraçadíssima, muito dramática. Tudo com ela era no superlativo. Sua mania de prever tragédias, insuportável a ponto de se tornar cômica. Seu humor,  infalível. Mas nada impedia que, meia hora depois de dizer uma graça absurda, ela  ameaçasse se jogar da janela por um motivo qualquer. Pelo menos uma vez por mês ela ameaçava se jogar da janela. Neurótica? Bipolar? Borderline? Nenhum psiquiatra jamais conseguiu dar um diagnóstico, enquadrá-la em alguma patologia. O nome dela era Maria Augusta.

A paixão da minha mãe pelo meu pai era ainda mais exagerada do que a dona. Ele era a razão da vida dela. Depois vinha eu. Depois vinham as cachorras. A Rosina e a Patrícia, minhas irmãs, desde pequenas lidaram com a preferência da mamãe por mim de uma forma elegantíssima. O papai amava loucamente aquela mulher. Aliás, loucura, no melhor sentido da palavra, era uma coisa que sempre combinava com ela.

Aí o tempo veio vindo, colorindo mais forte seus desenhos. A depressão dele virou doença. Os exageros dela terminaram passando da conta.

Aos 46 anos, ele se matou. Alguns anos depois, ela se excedeu na dose de remédios para dormir e não acordou mais.

Foi triste.

Mas houve muitos momentos mágicos e muitos engraçadíssimos.

Como na manhã em que ela me ligou, eu não estava em casa, e ela cismou que eu tinha morrido afogada. Ela correu para a praia, em desespero, e começou a perguntar a todas as pessoas que passavam se tinham visto uma moça loura se afogando. Como ninguém teve a competência de informa-la a respeito do meu afogamento, ela procurou o salva-vidas. O rapaz estava conversando com um colega, na areia, embaixo da cadeira alta onde ficavam os salva-vidas. Ela perguntou sobre a suposta moça morta. Ele afirmou que não houvera nenhum caso de afogamento naquele dia. Ela refutou “Como é que eu posso ter certeza, se o senhor não está prestando atenção direito?” Então subiu na cadeira e se pôs a tomar conta do Oceano Atlântico. Eu estava no supermercado.

 

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