Do frio ao Rio – A lua andante e o amor aquecedor

Por Clarice Freire

24 / setembro / 2014

Coluna 9

Madrugada. O sol ainda nem esboçou a vontade de se espreguiçar e o despertador avisa que ela vai se adiantar ao próprio astro escaldante. É hora de levantar. O cérebro demora para entender, afinal, ainda não amanheceu de fato. Ademais, a dona do tal painel de controle mental não está acostumada a se adiantar ao sol. Nasceu literalmente para a lua, tendo em vista que os seus pensamentos gostam de chegar quando todos já se calaram, inclusive as ruas e as árvores, madrugada adentro.

Aliás, nesta madrugada que passou ela viajou por antecipação para todos os lugares que estava por visitar a partir do dia seguinte. Rio de Janeiro… Porto Alegre… Curitiba… Rio de Janeiro… e a mala a encarava boquiaberta, esperando pelo alimento. O que vestir? Previsão do tempo. Faz frio? Quem ela encontraria? Como seriam os lugares? Impossível utilizar do seu recurso infalível para reconhecimento de território: sua imaginação mais fértil que o solo massapê, aquele que de tudo que se planta se colhe, famoso pela sua terra. Não dá para imaginar o desconhecido.

O despertador insiste. Abro os olhos sem saber em que cidade estava de fato, porque até então sonhava na terceira pessoa, um tanto fora de mim, penso. Era mesmo hora de levantar, a hora de ir para a tal turnê de lançamento do meu livro. Então não era suficiente imprimir um sonho, escrever um livro, mas era também verdade que eu iria começar a rodar este país para me encontrar no “tu a tu” com aquelas pessoas com quem converso todos os dias por uma tela de computador? Sim, era. O despertador me disse. Levanta. É verdade mesmo. Saio por um Recife que dormia preguiçoso com o dia que estava fazendo charme para sair da cama celeste e eu já estava desperta por estar perto de outros sonhos sonhantes ao meu.

Uma parada no Rio, trabalho, belezas, encontros inesperadamente belos, lá vamos nós para Porto Alegre. Eu, que nunca estivera em Porto Alegre, descubro que ela se chama também PoA, para os íntimos. Que lá faz frio, que todos os prédios possuem chaminés e as pessoas são tão gentis que poderiam ter sido feitas de algodão. Quanta gentileza. Como eu adoro pessoas gentilmente sinceras. Existe qualidade mais bonita? E lá estávamos nós na Fnac em uma noite de tantos sorrisos. Precisaria de muitas colunas aqui para descrever as coisas que ouvi dos gaúchos agasalhados que me aqueceram o coração com suas palavras. Aportei em um porto muito alegre, não era brincadeira. Fui embora de PoA, claro. Já sou íntima.

Curitiba não foi diferente na gentileza. Descobri que o clima também é frio, mas o olhar dos curitibanos é aquecedor. Que bonito foi aquele tempo para conversar, ouvir as perguntas. Que boas perguntas! Tão boas que me fazem pensar nas respostas até agora. Algumas delas já viraram poesia. Ou terapia. E não é que conhecer Curitiba me ajudou a conhecer um pouco mais desta eu mesma tão inconstante e latente? Saio de lá para provar o melhor hambúrguer do mundo com uma sensação de que o melhor do mundo poderia se chamar “encontro”. Foi muito bom me encontrar nas Livrarias Curitiba.

Ponte aérea para o Rio. Quantos aviões já me levaram? Já perdi as contas. Turbulência. Observo as nuvenzinhas. Conto vaquinhas. Respiro fundo. Cheguei. O Rio, que já é uma segunda casa, um lugar de tantos bons encontros. O berçário do meu Pó de Lua Livro. Do aeroporto, vou de mala e cuia para a Livraria Cultura do Cine Vitória. Centro do Rio. Caminhando por aquelas ruas dá para imaginar o Brasil antigo do Rio de Janeiro. As vielas estreitas porque só as pessoas eram necessárias. As construções bonitas, humanas. As catedrais gigantescas. Mal deu para piscar, hora dos autógrafos cariocas e aquele abraço do Chacrinha acabou ficando no plural. E que bons que foram aqueles abraços. Quanta poesia escutei, recebi, ganhei. Difícil era saber o que dizer em alguns momentos, ainda bem que não existia mais nenhuma distância internauta separando meus silêncios dos leitores cariocas. Sei que eles entenderam. Quando me faltavam as palavras, fazia um discurso calada, apenas olhando nos olhos que leram minhas páginas e os levaram para a mesma lua que eu, com todas as suas fases.

Obrigada, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro. Vocês de fato me deram dias e noites de lua cheia e, por isso, não tenho mais nenhuma palavra no bolso para agradecer. Mas a gente já se conhece. Vocês me entendem. Sabem o que quero dizer.  Assim se tratam os cúmplices.

E agora, você, que não estava em nenhuma dessas cidades, para onde você quer que eu vá? As malas e as alegrias já estão como poetas na sacada da janela: de prontidão.

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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Comentários

4 Respostas para “Do frio ao Rio – A lua andante e o amor aquecedor

  1. bom dia Clarice, estou muito feliz por falar com você, a cidade de Dourados no Mato grosso do Sul tem aeroporto, e fica perto de minha cidade, 2 ou 3 horas de viagem, e a cidade de Campo Grande fica 5 a 6 horas de viajem, espero que um dia você venha aqui.

  2. Que coisa mais linda que foi esse encontro em Poa. Obrigada por nos aquecer com tanto amor, Clarice. Já estamos com saudades e te esperando novamente. Beijos ❤

  3. Vem pra São Luis, MA! Amo seu livro, não canso de ler, cada nova leitura, uma nova interpretação! Parabens pelo lindo trabalho

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