As raízes móveis e a Bienal do Livro de São Paulo – alguma coisa acontece no meu coração

Por Clarice Freire

4 / setembro / 2014

Coluna 8 - As raízes móveis e a Bienal do Livro de São Paulo

Nasci e me criei na cidade dos manguezais. Cresci ouvindo o manguebeat de Chico Science e comendo caranguejo na praia. Ou em um bar qualquer de cadeiras na calçada. Uma paixão da minha mãe.  Já o meu pensamento sempre se demorou no mangue, mais precisamente nas raízes que exibem para fora da lama. Observava e imaginava desde menina que aquelas árvores eram livres como os brinquedos. Todos sabem muito bem que quando apagamos as luzes os brinquedos ganham vida e dominam toda a casa.

O mesmo acontecia com as plantas dos manguezais em minha imaginação patologicamente viajante. Imaginava que aquelas raízes estavam ali, para fora, porque à noite as plantas faziam passeios pelas pontes e vielas recifenses. Eram, como todos nós, boêmias por demais e, por isso, nunca voltavam a tempo para a lama. Hoje isso volta meus olhos para a contradição que as raízes – em geral – me despertam. Gosto de raízes. Sou especialmente apegada às minhas, como todo bom pernambucano.

As raízes que me pertencem são parecidas com as minhas amigas dos manguezais, para fora e móveis, mas elas não gostam de esperar as luzes se apagarem. Passeiam por todos os lugares, iluminados ou não, existentes ou não. E existe inexistência para raízes viajantes? Criei uma receita que diminui a gravidade das coisas e ela foi impressa em forma de livro no Pó de Lua. Pois o tal funciona tão bem que as minhas raízes têm criado ainda mais gosto por voar, além de usar somente as pernas. Supermutantes. Poesia é passaporte de grande porte. Quem não sabe? Pois bem. Da última vez eu fui parar em São Paulo, mais precisamente em um grande evento literário, em pleno sábado da Bienal do Livro e, entre tirar o casaco já colocando novamente, minhas âncoras tiveram muito com o que se surpreender.

Foi minha primeira viagem para lançar o livro longe da minha terra. São Paulo já de antes conhecida, mas, agora, com ares desconhecidos. Na verdade mares, porque não demorou para que eu percebesse o oceano de gente que é a Bienal. Lindo de ver. Uma festa da literatura, pessoas e mais pessoas carregando sacolas e mais sacolas lotadas de … livros. Impressos. Capa e papel. Mas o mundo não é moderno demais? Mas o livro não morreu? Não, amigos e amigas. O vento sopra a favor das páginas sendo carinhosamente passadas pelos nossos dedos que amam tocar o objeto letrado.

Eis a Bienal. Eis uma Clarice na Bienal com seu livro debaixo do braço. Eis o momento da tarde de autógrafos. E a falta de fome. E a falta de sede. E a falta de força nas pernas. Alguma coisa acontece no meu coração. Lá vou eu e, vejam só, me senti em casa: a multidão que se empurrava entre os estandes me fez lembrar dos carnavais de Olinda, quando você, de repente, não sente mais os pés no chão. Minhas raízes experimentando uma nova maneira de voo! A massa humana generosamente me transportou até o estande da editora e eu ouvi uma voz gritar “ela tá aqui!”; instintivamente me virei e tamanho foi o meu susto alegre ao ver que uma pequena parcela daquela multidão segurava meu livro nos braços, formando uma fila sem final aos meus olhos, todos sentados no chão. Acenavam para mim, eu acenava para eles e quando menos esperava já estava em minha mesa transparente como minha alma naquele momento: feliz pra quem quisesse ver.

E São Paulo me deu um abraço oceânico, gigantesco como ela mesma. Passei quase cinco horas trocando sorrisos, abraços e muita gratidão. Cada coisa que ouvi, cada um que reconheci, que me acompanhava desde os primeiros dias de Pó de Lua e fez questão de estar ali para me dar um abraço. Sou eu quem ganho, o prazer é meu, a honra é minha; espero que tenham percebido isso. Foi assim desde o primeiro momento em que cheguei naquela cidade até a hora em que tive de me despedir. Na mala, presentes, carinho, carinho, carinho e uma das minhas raízes neste lugar. São Paulo: obrigada, vocês são únicos. Me deram um dia e noite de lua cheia.

Agora os meus próximos destinos estão em mar aberto, assim como meus braços. Para onde vou? Por mim e minhas raízes, para onde você quiser, elas são móveis, viajantes, eu não falei?

E agora, pra onde você quer que eu vá?

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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Comentários

29 Respostas para “As raízes móveis e a Bienal do Livro de São Paulo – alguma coisa acontece no meu coração

  1. Clarisse vem pra cá onde eu moro no mato grosso do sul pra mim poder te ver. eu moro no sul de mato grosso do sul, no interior, numa cidadezinha pequena.

  2. Veeem pra Juazeiro do Norte por favorrrrrr!!!!

  3. Olá!

    Penso que, antes de desejar ir a outro lugar, seria elegante responder àqueles que elogiam o teu trabalho — se agradecer seria demais, ao menos que você se mostrasse solícita.

    De qualquer maneira, o livro é uma verdadeira joia (foi um acerto ter sido lançado pela Intrínseca) — em meio a tantos juncos, eis que surge uma rosa.

  4. Para onde o público te chamar. Seus leitores querem ver a Clarice linda e simpática, como eu e minha filha tivemos a chance de constatar que ela realmente existe. Como tivemos a chance também de falar com você, tirar uma foto e ver que a Clarice Freire existe além de suas lindas palavras. Siga o caminho da Lua e brilhe onde ela sempre brilhará: entre seus queridos leitores. Sucesso menina bonita.

  5. Venha para Santos, quando puder, Clarice. Eu fui à bienal de SP, mas não consegui pegar o seu autógrafo, pois estava muito cheio (snif, snif). Beijos e sucesso, hoje e sempre!

  6. Venha para Fortaleza, Clarice serás muito bem vinda!!!!!!!!!!!!!

  7. Vem pra Belém/PA Clarice *-* espero ansiosamente por isso. Beeeijos

  8. Clariiiiiiiiiiiice, venha pra Sobral-CE. Quero que todo mundo aqui conheça essa pessoal linda que eu tive o privilegio de conhecer. Ah, traga muito Pó de Lua, certo? Deus lhe abençoe!!!

  9. Clarice venha pra Brasília estamos loucos pra ter ver e quero meu autografo.

  10. Venha para o litoral catarinense todos estão adorando seu livro aqui. Você é uma fofa e nos escreve muito bem. Sucesso merecido, muita Luz na sua jornada !

  11. Vem pra Nova Friburgo!! (Interior do Rio de Janeiro)

  12. Clarice, quando puder, venha a Santos. Eu sou seu fã e fui á bienal de SP, mas não consegui pegar o seu autógrafo, pois estava muito cheio no dia. O seu livro é lindo. Eu adoro. Beijos e sucesso, hoje e sempre!

  13. Clarice, você ainda vai colher muito amor nessa vida, em todos os cantos do Brasil e além dele. Porque das suas palavras brota tanto amor, tanta coisa linda, nem sei falar. Seus leitores agradecem! Espero que venha na Bahia para que possamos conhecer esse amor em pessoa.

  14. Clarisse venha pra Belém – Pará, muitas pessoas querem ver você, muitas pessoas tem o seu livro e gostaram e muito e eu também. Clarisse se você vier para cá estarei muito grato, não só eu como todos os leitores que leram o seu livro o seu livro, estamos aguardando você aqui em Belém – Pará.

  15. Oi, Marcel

    Realmente nem sempre é possível que nossos autores consigam responder individualmente todas as mensagens.
    Gostaríamos de agradecer e muito o seu comentário e esperamos que outros acertos arrebatem nossos leitores cada vez mais.

    Abs!

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