A espera, a bonança e a esperança

Por Clarice Freire

28 / agosto / 2014

Sobre a minha primeira noite de autógrafos e a lua cheia.

Lançamento Pó de Lua por Clarice Freire - Recife - 19-08-14 - Fotos Américo Nunes-0144

Sempre fui uma pessoa de várias certezas absolutas. O que, claro, em se tratando de mim, é uma contradição. Se elas fossem de fatos absoLUTAS, lutariam muito mais pelas suas convicções, em vez de viver perdendo apostas e mudando o tempo inteiro. Não poderia ser diferente na noite de autógrafos que me aguardava no dia 19 de agosto de 2014, aqui no Recife. Sobre ela eu tinha várias certezas absolutas, mas a maior delas, sem dúvida, era de que não iria ninguém. Ninguém não, para não dizer – como gostam tanto de repetir – que sou exagerada. Eu tinha certeza absoluta que dois ou três gatos pingados estariam perto de mim para dar apoio moral, dizer que tudo bem. Família é para essas coisas, não? E aqueles amigos mais chegados também. Já dava para ficar otimista! Pensando assim, eu tinha certeza absoluta do número impressionante de quinze pessoas felizes por mim. Seria genial. E eu juro, estaria feliz também.

Contudo, o dia foi se aproximando e eu começava a me perguntar por que de fato aquilo estava acontecendo comigo. Se existe algo que me tira do eixo é não saber o que esperar. Eu ia lançar um livro. Na verdade, quase ter um filho em público. Já contei como foi o parto de um livro na lua por aqui. O que esperar de algo assim?  Não fazia a menor ideia. Então o jeito era viver o bom da espera. A espera, dizem, é uma das melhores partes de uma viagem, por exemplo. Ou de uma festa. A espera. Eu gosto da espera. Gosto do fato de ela me lembrar, obviamente, “esperança”. Sempre imaginei que a esperança era a junção da espera com a bonança (na cidade dos meus avós, Gravatá, há um mercadinho chamado “Bonança”. Me explicaram que esta palavra significava “um tempo do bom” e eu nunca esqueci da bonança). Desta forma, esperança só poderia me fazer esperar por coisas boas, dizia a Pollyana que vive timidamente em mim, escrevendo um infográfico mental.

E o tempo começou a entrar na história para fazer o que mais gosta: pregar peças nas minhas certezas absolutas e nas absolutíssimas, sobretudo. Dias ele se arrastava, preguiçoso, e as horas não passavam. Dias voava, formoso, e as horas disparavam. Não dá para esperar pelo tempo.

Quando já não me importava com os segundos, amanheci – sempre amanheço – no dia da poesia. Fazia tanto sol e eu só pensava na lua. Fazia tanto calor e eu sentia calafrios. Mais uma vez, as contradições brincavam de passear por dentro de mim. E eu já não tinha nem sequer uma certeza absoluta para me entreter lutando por ela.

Chegou o momento de me vestir (o que vestir?) e sair de casa para o trânsito da minha linda cidade. Andando de palmo em palmo, as palmas das minhas mãos já estavam gélidas. Recebia ligações, fingia simpatia quando a voz se recusava a sair. Erramos o caminho, fomos parar onde Judas perdeu as botas e os meus sapatos já sapateavam ansiosos no chão do carro, mas cheguei. Ia abraçar meus 15 gatos pingados e comemorar com alegria este sonho impresso, esta poesia flutuante transformada em páginas. Eu também comemoraria feliz sozinha, com um nível de alegria grande, porque sei como tudo começou, sei de onde tudo aquilo vem. Eu sei.

E é impossível descrever ou imaginar o susto da minha certeza absoluta quando viu a quantidade de gente que fazia um caracol gigante em forma de fila esperando a bonança comigo. Perto de 500 pessoas, talvez? Eu não conseguia ver muito bem, a esta altura a minha vista estava turva e eu também havia perdido parte da audição. Alguém me empurrou até a mesa dos autógrafos, alguém me disse alguma coisa – eu não escutava – até que apareceu Duda (nunca vou me esquecer de Duda) de braços abertos. Ela era a primeira da fila do imenso caracol e sorria quase tão nervosa quanto eu. Foi engraçado. Não sei dizer quem estava mais nervosa. Nem quem achava mais graça da outra. Nossos sorrisos se abraçaram sinceros. Escutei alguém dizer: “Ela está aqui desde uma da tarde”. Nesta hora eu disse: “Duda, sério?”, e então ela me ajudou a voltar a ouvir, a falar e a ver. Sentei e vi que tinha que reaprender a escrever também, porque a mão protestava, mas Duda me ajudou porque achava graça. E eu escrevi para ela, com gratidão. Obrigada, Duda.

O tempo foi passando e pude identificar rostos amigos, rostos antigos, rostos amados, rostos desconhecidos, mas todos queridos, muito queridos. E de repente Clarice estava inteiramente ali, inteiramente em cada abraço ou sorriso que recebia, em cada notícia de quem veio de muito longe para estar ali, de quem me disse coisas tão bonitas. E eu ganhei, vejam só, uma nova certeza absoluta: não terei nunca como agradecer toda a bonança que esperou, nem a espera tão boa de estar com vocês naquela noite de lua cheia. E que venham todas as fases lunares pela frente.

 

 

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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Comentários

2 Respostas para “A espera, a bonança e a esperança

  1. Noite linda demais! Nunca vou esquecer do abraço demorado que Clarice concordou em deixar durar. Dava pra sentir a doçura emanando da mesa de autógrafos! Espero que venham outros livros, pois quero mais abraços! HAHA

  2. Clari, não sei nem o que falar com essa foto e essas palavras lindas que você falou. To toda emocionada aqui lembrando de quando você chegou. Foi simplesmente incrível seu sorriso e eu fico tãaaaao grata em ter sido importante pra você, de verdade. Vamos se ver muito ainda ai pelo mundo, você quem disse hahahahhaha Te ensinei a voltar a ver e ouvir e você me ensinou a fazer poesias desenhadas e encantadas. Obrigada, minha linda <3

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