[UMA CARTA PARA NINA]

Por Clarice Freire

10 / julho / 2014

Coluna 2 - Uma carta para Nina
Faz calor. Mas estou num terraço de chão frio que equilibra o ar comigo. Está quente, mas venta de leve nas folhas amareladas. Fico assistindo a janela como se fosse TV, em uma cadeira cativa, cativando suspiros que ninguém vê. Você sabe como sou melancólica às tardes, Nina. Comendo suspiros saídos do forno. O dia está um forno, com cheiro de fornada de pão, mas é amarelado e isso tem um lado tão gostoso.

Vai chover que eu sei. Eu sou do interior, eu sei das coisas. Por isso minha carta vai ser curta. Quando chove a varanda molha inteira e eu não gosto de escrever com o barulho da TV lá dentro. E o cachorro não vive sem a TV ligada, você sabe, Nina. Se não tem com o que se entreter, come todos os suspiros. Só escrevo na varanda. Será que dá tempo?

Como vai Nevinha, Lourdes, Oscar, Cabo Jaime? Nevinha leciona pros meninos ainda? Lourdes ainda costura os calangos na cadeira antiga? E Oscar, come? O Cabo Jaime ainda canta na rádio?

Mande notícias pelo vento, por favor. Eu prefiro. As coisas por ele chegam mais arejadas e transparentes.

Certifique-se que não vai chover, por favor. Você também é do interior e sabe das coisas. Se as noticias se molham e derretem, o que vai ser do meu relicário?

Eu vou bem. Já senti saudade, já senti ciúmes, já me senti sozinha demais; daí distribuí suspiros pelos cantos da casa. Já senti frio e fome também, mas fiz e comi suspiros pelos cômodos. Como é cômodo comer essas delícias de forno! Agora estou bem.

Um segundo, está chovendo, vou desligar a janela. Me espere.

Voltei. Não tenho muito tempo, a chuva vai molhar a varanda. Vim só me despedir e pedir que você me mande farinha de trigo, por favor. Mas coloque num saco cheio, saco vazio o vento leva e não volta mais, você sabe, Nina.

Aproveite e se encha de amores você também. Senão você não voa e vai morrer a pé. Estou avisando. Seu Euclides me disse que você anda amarelada.

Mande lembranças a Petronila. As sandálias de algodão que ela esqueceu aqui parecem nuvem e quase que eu as deixo sair pela janela. Peça pra ela vir buscar.

Com amor e letra de forma,

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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Comentários

Uma resposta para “[UMA CARTA PARA NINA]

  1. Os seus textos são de uma leveza, doçura, simplicidade mesclada com inteligência, com a intimidade necessária e suficiente que não há como não se sentir à vontade, cativada e tomada por todos esses adjetivos!
    Parabéns, Clarice, e vida longa à você e sua criatividade!

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