SOBRE O INFINITO, UMAS LARANJAS E O BIGODE

Por Clarice Freire

17 / julho / 2014

Coluna 3 - Sobre o infinito
A senhora sempre comprava as mesmas frutas vermelho amareladas pra fazer suco no final da tarde. Ia sempre na mesma venda. Levava sempre os mesmos sacos surrados com um símbolo de infinito na frente. Todos os dias. Curioso, o senhor bigodudo que vendia as tais frutas quis fazer mais uma de suas perguntas inteligentes e ter assunto para contar no mesmo bar de todos os dias. O mesmo bar.

– Bom dia, senhora.

– Bom dia.

– As laranjas de sempre?

– Dez, por favor.

– Posso fazer uma pergunta?

Agora sua expectativa ficou do tamanho do seu bigode

– Já fez.

Ele ignora.

– Isso na sua sacola, significa infinito, não é?

Agora ele já achava que sua esperteza era maior que o bigode.

– Sim.

– Mas todos os dias tem que comprar laranjas novas. E as coloca aí dentro. Elas acabam rápido, a vida acaba rápido, o dia acaba rápido, o suco acaba rápido. A senhora já devia ter concluído, portanto, que o Infinito não existe. Não acha que fica um tanto ridículo para alguém da sua idade usar um símbolo desses pra comprar todo dia as mesmas frutas porque elas ACABARAM?

“Rá!”, pensou o bigodudo. “Ah”, pensou ela enquanto escolhia mais laranjas por cima dos óculos.

– Acabou por hoje, mas a culpa é sua.

– Minha?

– Você vai estar aqui de novo amanhã, isso quer dizer que amanhã tem mais laranjas, então elas estão na verdade acabando ou começando?

O homem agora se engasgou com os bigodes. Pensou. Precisava valorizar seu trabalho.

– Bom. Graças a mim, estão começando.

– Então pare de vender laranjas e eu deixo de acreditar no Infinito.

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Clarice Freire nasceu no Recife, em 1988, e desde muito cedo aprendeu a usar as palavras para acalmar suas inquietações. Cresceu admirando os desenhos em lápis de cor da mãe, Lúcia, e os versos do pai, Wilson. Uma noite, ouviu falar que a lua era bela porque, mesmo sendo só areia, deixava refletir a luz de outro, e por isso as noites não são escuras. Daí veio a inspiração para o nome de sua página no Facebook, Pó de Lua, criada em 2011.
Clarice escreve, quinzenalmente, às quintas.

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