Diário de Isabela Freitas

Por Isabela Freitas

17 / julho / 2014

diário10

Todo mundo acredita em mim, menos eu. Sempre foi assim, e acredito que sempre vai ser. Não que eu tenha algum problema com mudanças ou algo do tipo, é que acho que isso vem me trazendo uma sorte boa. Você já vai entender o porquê. Vale ressaltar que eu sou otimista, ah, sou sim. Acredito que tudo vai dar certo, e que todos vão ser muito felizes no final — seja lá qual for. Mas quando se trata sobre minha vida, ih… Estou sempre pensando o pior.

O mês que antecedeu o lançamento do meu livro foi o pior da minha vida. Talvez vocês se perguntem: “Como assim? Você estava realizando o seu sonho!”. Exatamente! Mas um que não pode ser vivido sozinho, e eu tremia de medo de ninguém gostar do meu livro. Verdade. Imaginava as piores coisas possíveis. Pilhas de livros encalhados nas livrarias, um e-mail me dizendo que infelizmente não estava dando certo e lamentando muito, as pessoas me enviando mensagens decepcionadas com o que haviam lido, e eu chorando sozinha num canto do meu quarto. Como sempre.

O livro lançou, e me lembro da sensação gostosa ao ver a primeira leitora o segurando em suas mãos. Fiquei maluca. Uma leitora! Eu já tinha uma leitora. No mesmo dia recebi foto de outra leitora. Eba! Mais uma! Já somos um exército de três, hein? Ah, a terceira. Formamos um ótimo quarteto. Ao menos se ninguém mais gostasse do meu livro, eu poderia dizer ‘’ei, mas teve gente que gostou!’’. Mas, graças aos céus, isso nunca aconteceu. Os leitores começaram a aparecer aos poucos, tímidos. O quarto, quinto, sexto… E quando me dei por mim, havia perdido a conta. As mensagens que eu fazia questão de responder uma a uma, se multiplicaram. Por mais que tentasse responder todas, sempre apareciam mais e mais. Pessoas de todos os cantos do Brasil, e do mundo. Recebi e-mail de gente da Itália, Portugal, Espanha, Índia. Todos elogiando o meu trabalho, contando suas histórias de vida, e dizendo o quanto Não se apega, não os ajudou de certa forma. O meu coração não tem espaço para tamanha gratidão. A cada mensagem que recebo, tenho uma vontade imensa de abraçar a pessoa do outro lado da tela. É como se minhas palavras não bastassem.

A noite de autógrafos do meu livro aqui em Juiz de Fora foi outro calvário emocional. Morri de medo de não aparecer ninguém. E se ficássemos somente eu e minha família lá na livraria? E se ninguém desse bola pro lançamento de um livro com a capa vermelho-rosa? Meu estômago embrulhava só de pensar nisso. Enquanto fazia a maquiagem no salão, tentei me distrair, ler uma revista. Nada funcionava. O pensamento voava e ia de encontro a uma livraria vazia. O que as pessoas iriam falar de mim? Será que eu me importaria? O que meus pais sentiriam ao ver uma cena como essa? Com certeza me importaria. Não é nada legal ver nossa desgraça assim exposta para todos. Vesti minha melhor roupa. Coloquei um sorriso no rosto. E disse para mim mesma que tudo ia dar certo. Porque mesmo que não esse, é legal pensar assim às vezes.

Ao chegar na livraria, um espanto: uma fila enorme me aguardava. Tentei reconhecer os rostos da fila, e foi surpresa atrás de surpresa. Amigas de infância, do colégio, da faculdade. Pessoas que, a meu ver, nem lembravam mais de mim. Vi também algumas pessoas que achei que não fossem com a minha cara — já disse que tenho mania de perseguição? Pois então, eu tenho. Vi pessoas desconhecidas e queria saber o nome de todas elas. Fiquei ansiosa e animada. E foi nesse momento que eu percebi que não precisava ter medo. Não precisava temer a aceitação, as pessoas, ou o que iam dizer de mim. Eu só precisava ser… Bem, eu. E o resto o destino dava conta de colocar no lugar.

Autografei a noite toda. Conheci pessoas da minha cidade, outras que vieram me ver de outras cidades, e revi grandes amigos que a rotina me impedia de encontrar com frequência. Foi como fazer aniversário, só que muito melhor. Porque eu não ganhei presentes, ganhei pessoas. Guardei cada uma que foi ali me ver e me dar um abraço no meu coração. Me emocionei com algumas, como um leitor de Sete Lagoas que viajou só para me ver. Ou a pequena leitora de 11 anos que veio de São Paulo com o papai para me dar um beijo. Ou a leitora que levou uma cartinha com um desenho que a mãe havia feito de mim. Ou minha amiga de infância que chegou recitando uma das falas do meu desenho animado favorito A nova onda do imperador, e fez meus olhos encherem de lágrimas. Essa era, de fato, a minha kuzcotopia, o refúgio de verão do personagem do desenho.

Me tornei escritora para levar o bem através das palavras. Fazer o leitor sair do chão por algumas horas e esquecer um pouco os problemas da vida. Porque para mim sempre funcionou dessa forma. Meus livros eram minha válvula de escape e meu apoio quando eu não tinha mais ninguém. E enquanto existir uma pessoa que se sente melhor com o que eu escrevo… Vou continuar escrevendo.

Que venham os lançamentos nas próximas cidades. Que venham mais presentes em forma de pessoas. No meu coração sempre vai caber mais um. E mais um. E mais um…

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Isabela Freitas é autora de Não se iluda, não e de Não se apega, não, o primeiro livro jovem nacional da Intrínseca. Em 2011, começou seu blog, que já soma mais de 130 milhões de visualizações. Estudante de Direito, pretende cursar Jornalismo um dia. Mora com os pais em Juiz de Fora (MG), onde nasceu.

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Comentários

Uma resposta para “Diário de Isabela Freitas

  1. ” Me emocionei com algumas, como um leitor de Sete Lagoas que viajou só para me ver.”

    E viajaria novamente! O seu carinho e sua atenção, são fora do normal. Muito feliz por ler isso, Isabela, faria tudo de novo! Foi incrível te conhecer! <3

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