A noite de autógrafos e seus inesperados

Por Míriam Leitão

27 / maio / 2014

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Quando chegou a vez da jovem na fila de autógrafos, ela me entregou um presente. Contou que palavras que escrevi a tocaram. Como um texto sobre a situação vulnerável dos brasileiros no Japão na crise de 2008.  Foram eles as primeiras vítimas do desemprego. “Eu estava lá”, disse. Depois se referiu a uma coluna de Natal e outra sobre mulheres. Explicou que eu havia captado seus sentimentos. Enquanto falava, chorou. A moça tem um nome próprio da mistura paulista: meio brasileiro, meio japonês.

Abri o presente no hotel, porque na fila de autógrafos houve tempo apenas para um abraço apertado na moça que eu não conhecia e que dizia me conhecer pelas palavras. Era um moleskine com um lindo desenho de mulher feito a bico de pena na capa. Na carta, que acompanhava o presente, ela escreveu: “esse caderninho, que lhe presenteio, é feito por uma artista que desenha cada traço, cada ponto a mão. Para lembrar-nos que somos únicos e, ao mesmo tempo, somos todos”.

Um amigo, de origem italiana, apareceu de repente na livraria, avisando em frases rápidas que estava apenas de passagem.

─ Não quero seu autógrafo hoje, não posso ficar na fila. Trouxe um presente.

E deixou sobre a mesa da livraria um tubérculo de taioba.

─ Depois explico como cuidar dele – avisou já de saída.

A taioba foi abundante no quintal da minha casa em Caratinga, hoje desapareceu das feiras e mesas. É uma iguaria entre as verduras. Para explicar literariamente, tem um sabor capaz de me remeter ao tempo perdido, como a madeleine proustiana. Eu carreguei o tubérculo com esperança e temor quando saí da livraria ao fim da noite. Se ela não brotar terei contribuído para o extermínio da verdura; se conseguir que a planta prosperei terei de volta o sabor das folhas que minha mãe plantava com esmero e competência. Não satisfeito com a gentileza o amigo me deixou no dia seguinte um buquê de folhas de taioba na porta do hotel, com um aviso de que eu poderia colocar até na mala, que elas suportariam. O rapaz do hotel me entregou um pouco perplexo, principalmente ao constatar que recebi as enormes folhas verdes com o encantamento que as mulheres ganham flores.

O dia do lançamento paulista de Tempos extremos fez jus ao nome do livro. Um dia difícil numa semana estressante. Por isso cada pessoa na fila era uma prova de resistência do carinho. A fila andou por horas como uma onda de afagos. Um homem alto de carregado sotaque português chegou com seis livros e foi dizendo:

− Esse é para um amigo que mora na França, esse está nos Estados Unidos, esse é para uma ministra do governo português…

Houve um momento em que levantei os olhos e vi que juntos estavam dois amigos queridos, um morador de Brasília, outro do Rio. Em São Paulo, de passagem, em vez de curtir os deliciosos restaurantes paulistas, tinham ido à livraria me ver. Outra amiga querida, que sei que trabalha até tarde, estava lá para um abraço apertado e uma palavra de encorajamento. Pessoas que eu não conhecia se misturavam a velhos amigos. Um que não vejo há vinte anos chegou com o charme de sempre e a simpática namorada nova. Um casal querido me honrou com sua presença carinhosa e depois eu soube que, convidados para outro evento, haviam recusado terminativos: “essa noite é da Míriam”.

Um casal que já tem o livro autografado foi para reafirmar a amizade. Um desconhecido disse que estava ali por gostar das minhas ideias. Outro avisou que era um teste: “gosto do que você escreve sobre economia; quero ver como se sai num romance”. Vários queriam, além do autógrafo, fotos para as redes sociais. Um chegou dizendo que a fila fora boa: “vim lendo e o livro já me pegou”. Um se disse curioso: “o que faz uma jornalista de economia se aventurar na ficção?”

Enquanto escrevia no livro, a pessoa sempre me entregava ao ouvido, um recado, um pequeno detalhe da sua história, ou da pessoa à qual o livro seria dedicado.

Velhos amigos que não via há tempos davam abraços apertados, uma saudação rápida e o pedido de nos vermos com calma. Alguns admitiram estar com vontade de voltar aos textos que tinham trancados em gavetas.

A ansiedade inicial de qualquer noite de autógrafos foi cedendo espaço para a alegria, quase euforia. Era amor o que eu recebia naquela noite, o mesmo que recebera no Rio. Na tarde daquela quinta temi pelo pior. O paulista enfrentara o intolerável durante a semana. Greves, engarrafamentos que chegavam a 300 quilômetros, protestos, aquele dia havia sido particularmente difícil. Depois, quando religuei os celulares, encontrei vários torpedos com avisos dos que tentaram, mas não conseguiram chegar.

Sempre penso nas noites de autógrafos como um mistério que não sei desvendar. Haverá formas de realizá-las sem impor aos amigos o desconforto? E nas horas que precedem sempre fica a dúvida: haverá filas? Em caso positivo, os leitores  podem se chatear na longa espera. Ou aproveitar e reencontrar velhos amigos comuns. O que leva a pessoa desconhecida também a ficar ali? E o que escrever para cada pessoa que comprou seu livro e esperou seu momento?

Há várias formas. Eu prefiro a palavra dedicada a cada pessoa. Enquanto me falam no ouvido, algo vem à minha mente. O improviso sai natural. Acredito, como disse minha jovem amiga da qual tenho agora apenas o nome e o belo caderninho, que somos únicos e ao mesmo tempo somos todos.

Era tarde, hora de fechar a livraria, quando chegou o último pedido de autógrafo. “Está cansada?”, perguntou. “Não, essa é a alegria do autor”, respondi. Terminada a noite, dei alguns passos para sair da loja, mas voltei para olhar de novo a mesa enfeitada com o livro, o banner de Tempos extremos. Quis guardar na memória cada momento daquela noite e lembrei com emoção de quando escrevia o livro sem saber se faria sentido, se haveria um ponto final, se seria publicado. Não sei como será a próxima sessão. Aguardarei com esperança convencida de que cada pessoa é única.

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Míriam Leitão é de Caratinga (MG). História do futuro: o horizonte do Brasil no século XXI é seu terceiro livro de não ficção. Também é autora do romance Tempos extremos , publicado pela Intrínseca em 2014, e de três obras infantis. É jornalista de TV, rádio, jornal e mídia digital. Em quarenta anos de profissão, recebeu diversos prêmios, entre eles o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, de Nova York. Ganhou o Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2012 por Saga brasileira. É casada com Sérgio Abranches, tem dois filhos, Vladimir e Matheus, e um enteado, Rodrigo. É avó de Mariana, Daniel, Manuela e Isabel.

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Comentários

3 Respostas para “A noite de autógrafos e seus inesperados

  1. Adorei o livro, li-o em 5 dias, fiquei maravilhada, e ao mesmo tempo impressionada com mundos paralelos e tão próximos no sofrimento em comum. Bom seria ele ser publicado aqui em Lisboa onde moro. Fui a passeio ver família em São Paulo e vi a entrevista que ela deu ao Jô Soares. Fiquei curiosa e comprei o livro. Espetacular a narrativa, o seu conteúdo, e a semelhança com as histórias no sofrimento. O povo português deveria pedir desculpas ao Brasil pelo tráfico de escravos, coisa que ainda não o fez, infelizmente. Mas fica a dica para ser lançado aqui. Abraços

  2. Vou lançar um livro amanhã 06/05 em Brasília, meu livro se chama “Para não esquecer das lembranças…” (Editora Giostri) e estava em busca de informações sobre como me comportar na minha noite de autógrafos..seu texto não apena me motivou como me emocionou como se eu estivesse vivenciando minha própria noite… só posso dizer que senti a deliciosa sensação que descreve, e que amanhã vou me lembrar de você. Obrigada por compartilhar =) beijos. Isabella

  3. Que lindo, Mirian. Não sabia que escrevia ficção. Cheguei a esse texto após pesquisar sobre autógrafos na internet, já que autografarei meu primeiro romance sábado, dia 11 de junho. Foi bom saber que minhas inseguranças são comuns até mesmo para uma jornalista respeitada. Obrigada

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