Entrevistas

Um breve tempo com Míriam Leitão

26 / abril / 2014

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Era uma tarde de sábado em 2011. Como raras vezes costuma acontecer, Míriam Leitão estava sem ter o que fazer. Seu próximo livro de não ficção, A história do futuro (a ser publicado pela Intrínseca em 2015), começava apenas a ser planejado. De repente, ela entreviu em sua cabeça uma cena aparentemente banal, uma mulher que vislumbra um vulto na escuridão. Sem se conter, pôs-se a escrever. Pronto. Naquele instante, teve origem o conflito que a consumiria pelos próximos meses: conseguiria uma consagrada jornalista e escritora de não ficção embarcar na linguagem da fantasia e escrever um romance?

Enquanto aprofundava suas pesquisas para o livro sobre economia, que examina as possibilidades para o futuro – Míriam se sentia insistentemente cobrada pelos seus personagens de ficção a desenvolver cada vez mais suas histórias. E assim, começou a criar paralelamente duas narrativas que são, no fundo, complementares por tratar do mesmo país, porque não há compreensão possível do futuro sem que seu passado seja conhecido. E o Brasil, como já se viu em diversos momentos, tem dificuldade em lidar diretamente com acontecimentos de um passado doloroso, que costumam ser varridos para debaixo do tapete e que voltam sempre a nos assombrar.

Em Tempos extremos, romance de estreia dessa mineira de Caratinga, o leitor desvendará as histórias que se desenrolam em diferentes tempos cronológicos em uma fazenda imponente escondida nas serras de Minas Gerais. Mistérios que chegam de forma inesperada, revelando passados diversos a uma família dividida por conflitos afetivos e políticos durante uma reunião para comemorar os 88 anos da matriarca. Larissa, a insegura protagonista criada por Míriam, viverá uma estranha jornada na qual perseguirá sombras e segredos para entender os próprios sonhos.

Míriam Leitão conversou conosco sobre Tempos extremos, que chega às livrarias a partir de 8 de maio.

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Intrínseca: Como você descobriu a literatura? Sua família incentivava a leitura? Qual o primeiro livro que leu e qual o romance mais marcante da sua vida?
Míriam Leitão: Embora a cidade de Caratinga, no interior de Minas Gerais, não tivesse bibliotecas públicas (tive apenas a biblioteca da minha escola), meu pai era um leitor ávido. Ele ascendeu da pobreza extrema por meio da educação e os livros sempre tiveram um papel importante na casa. Eu sou a sexta filha de um total de doze crianças e, logo na saída do quarto das meninas — onde habitávamos eu e mais quatro irmãs — havia uma grande estante de coleções de livros de contos de fadas. Junto a eles, ficavam todos os títulos de Monteiro Lobato e todos os títulos da coleção Tesouro da Juventude…

Desde pequena, portanto, tinha estímulo a ler. Até mesmo por isso, não me lembro qual o primeiro livro que li, mas da sensação da primeira leitura. Logo que fui alfabetizada, peguei um volume na estante e li. Mas terminei sem entender nada. Sabe quando você lê as palavras, mas não as compreende? Não fiquei satisfeita e me pus a ler novamente. Cinco vezes. Por fim, entendi a história. Essa foi a minha primeira leitura.

Aos oito anos o livro As aventuras do Barão de Munchausen me marcou muito. Até hoje uso algumas expressões da história! No início da adolescência, por volta dos 11 anos, entreguei-me aos clássicos: Jane Eyre, Dom Casmurro… Meu pai disse que era cedo para entrar no Realismo, muito pesado para uma mente ainda jovem demais. Deixei Machado de Assis de lado e li todos os livros de José de Alencar, por sugestão dele. Depois, terminei toda a obra de Machado de Assis.

A leitura mais marcante da minha vida, sem dúvida, aconteceu aos 16 anos: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa — que até hoje tenho em minha cabeceira. Eu me lembro que, ao terminar de ler, deixei o livro para a minha irmã com um bilhete dizendo assim: “Guimarães Rosa escreve colorido.”

Intrínseca: Seu romance, Tempos extremos, transporta o leitor a diferentes períodos históricos com fluidez e sensibilidade e retrata parte do folclore do interior do Brasil com episódios sobrenaturais, algo muito característico da literatura latino-americana. Quais seriam os autores que mais a marcaram?
Míriam: Toda a minha geração ficou enamorada com o realismo fantástico — li e guardo com carinho Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, entre outros escritores latino-americanos. Mas também li Tolstoi, Dostoiévski, Hemingway, Graciliano Ramos (aos 14 anos, li Vidas secas pela terceira vez), Doris Lessing, Simone de Beauvoir.

Intrínseca: Você é premiada como jornalista e como escritora de não ficção, quando decidiu que era o momento de escrever um romance?
Míriam:
Ao contrário de muita gente, entrei para o jornalismo por gostar de notícia mesmo, não por querer ser escritora. Temia, apesar de querer muito, escrever livros. O livro é um objeto tão sagrado… Disse a um professor, aos 11 anos de idade, que queria ser escritora — essa foi a única vez que confessei esse desejo, essa fantasia.
Esse primeiro romance não foi premeditado. Eu não sentei e decidi escrever uma ficção. Ela se impôs. Numa tarde de sábado, em 2011, após o lançamento do Saga (a não ficção Saga Brasileira), imaginei uma cena e, como não estava fazendo nada, resolvi pô-la no papel. Então, pensei: vou escrever um conto. Segui escrevendo e os personagens continuavam comigo — e comecei a me enamorar com as ideias de escrever sobre o passado. Não era um conto, era um romance.

Eu parava a todo momento, pois já estava trabalhando na próxima não ficção. No início, fiquei muito insegura, mas duas pessoas me incentivaram a ir em frente: meu marido (o cientista político Sérgio Abranches) e Ana Maria Machado que, em uma palestra indicou a leitura de A verdade das mentiras, de Vargas Llosa, um livro de ensaios que analisa a criação literária e me ajudou a enxergar a possibilidade da construção de uma verdade nas mentiras da ficção.

Esse livro foi uma necessidade minha — precisava escrevê-lo, não tive escolha. E nem sempre queria, tinha de parar por causa de outros compromissos. Mas quando sentava para continuar a escrever, continuava de onde parava, sem titubear. Assim nasceu esse romance.

Intrínseca: Como foi escrever uma ficção tão densa, com muitos personagens, dois períodos históricos complexos e ainda seguir com a rotina atribulada da sua vida pessoal e profissional no jornalismo? Que conselho que você daria para quem tem interesse em se tornar um escritor?
Míriam:
Às vezes, as coisas brigavam, não tinha jeito: entre televisão, rádio, jornal, livro de não ficção e o romance, ficava semanas sem tocar em Tempos extremos. Mas em outras ocasiões, trancava-me por cinco horas afastada de todos e apenas escrevia.

A quem deseja escrever minha recomendação é: leia muito. Leia tudo. Leia sempre. Leia os clássicos, pois estruturam o pensamento e, apesar de apresentarem outra linguagem, enriquecem o vocabulário. As palavras têm música — leia poesia!

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Comentários

3 Respostas para “Um breve tempo com Míriam Leitão

  1. Vi a entrevista com ela no programa do Jo, e me interessei pela obra

  2. Acabei de ler, adorei “Tempo Extremos”, viajei na história. A abordagem dos assuntos, ditadura e escravidão, foi brilhante, inteligente e sutil.
    Não devemos nunca nos esquecer dos momentos tristes e sufocantes da ditadura.
    Parabéns Miriam Leitão, se mostrou uma excelente escritora de ficção, tendo em vista, eu ser uma leitora assídua das suas obras. “Saga Brasileira” é um livro que deveria ser lido por todos os brasileiros, achei sensacional.

  3. Acabei de ler Tempos Extremos ficando empactada com o conteúdo do Romance. O que dizer dos personagens Bento, Paulina, Larissa e suas histórias. Fantásticas!!! Continue investindo em romance do topo em tela. Parabéns.

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