Gabo ficou um pouco em cada um de nós

Por Míriam Leitão

17 / abril / 2014

Gabo ficou um pouco

Ele foi saindo devagar. Perdia a memória. Justo ela que nos ajudou tanto. Mesmo assim, quando Gabriel García Márquez saiu hoje, completamente, de cena, a sensação foi de orfandade. Lembro onde estava quando li cada um dos seus livros, e como eles me acalentaram nos períodos da minha solidão.

Na noite em que entrei em Macondo pela primeira vez com o Coronel Aureliano Buendía e aquelas vinte casas, decidi ficar mais tempo. Meu mundo era tão recente que eu ainda estudava no Colégio Caratinga. Fiquei tão hipnotizada que li a noite inteira e, de manhã, fui para a aula. A cabeça ainda em Macondo. Eu não entendia a vida. E depois foi apenas esperar chegar cada um dos livros dele. Ou então voltar ao começo, desde o “Relato de um náufrago”.

É como me sentia quando, de Débora Thomé, recebi um e-mail cruzando meu cotidiano de jornalista de economia. Transcrevo aqui porque são sentimentos irmãos:

“Estou em prantos. Talvez, se não fosse ele, não seria a metade do que sou hoje. Ou seria um eu irreconhecível.

“Não correriam companhias bananeiras e histórias fantásticas nas minhas veias. Talvez não tivesse o calor de Macondo, nem sentisse a poeira da terra.

“Talvez nunca tivesse um senso de latinamericanidade na minha vida.

“Vejo as gotas de sangue pingando dos Doze Contos, o primeiro livro de adulto que li.

“Vejo a máquina sendo roubada da vitrine durante o Bogotazo.

“Vejo o sinal de tormenta na residência de Felipe González.

“Penso também nos que sobreviveram – ou não – aos sequestros.

“No náufrago e na caravana da pobre Erêndira.

“É o mais querido da minha biblioteca. O único com espaço próprio, com edições em duas línguas, com tratamento de coleção. (O bom dos livros é que eles ficam até as traças.)

“Peço, pois, licença para este momento de drama compartilhado: é a minha latinidade nagô que um dia Gabriel me ‘enseño’.”

Texto publicado originalmente no Blog MiriamLeitão.com, com a jornalista Débora Thomé

 

Míriam Leitão é de Caratinga (MG). História do futuro: o horizonte do Brasil no século XXI é seu terceiro livro de não ficção. Também é autora do romance Tempos extremos , publicado pela Intrínseca em 2014, e de três obras infantis. É jornalista de TV, rádio, jornal e mídia digital. Em quarenta anos de profissão, recebeu diversos prêmios, entre eles o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, de Nova York. Ganhou o Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2012 por Saga brasileira. É casada com Sérgio Abranches, tem dois filhos, Vladimir e Matheus, e um enteado, Rodrigo. É avó de Mariana, Daniel, Manuela e Isabel.

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Comentários

2 Respostas para “Gabo ficou um pouco em cada um de nós

  1. Prezados,

    Gostaria de saber onde e quando será lançado o livro: Tempos extremos da Miriam Leitão.

    Atenciosamente,
    Sara Macedo

  2. Oi, Sara

    “Tempos extremos” será lançado no dia 8 de maio. Abs!

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