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Menu degustação

14 / março / 2014

Herman Koch - falta texto

Por João Lourenço*

Em O jantar, Herman Koch levanta uma importante questão moral:  até onde você iria para proteger um filho? Através de um redemoinho de pensamentos, o narrador de Koch reflete sobre os falsos caminhos que seguimos para agradar aos outros e a nós mesmos e analisa a complexidade das escolhas triviais que fazemos ao longo da vida. Em entrevista por e-mail, o autor holandês falou sobre as desilusões de uma geração cínica e entediada, desvela os medos que a maioria tenta ignorar e nos mostra que os piores monstros são aqueles dentro de nossas casas, dentro de nós mesmos. Para o autor, a violência não tem rosto nem endereço.

O livro de Koch confirma que em qualquer família as melhores discussões acontecem na hora do jantar.

– O senhor é conhecido na Holanda por sua carreira de ator e escritor. O jantar é seu sexto romance. Como se sente em relação à grande atenção internacional que o livro tem recebido?

HK: Acredito que o livro tenha feito sucesso devido ao sentimento generalizado de que não conhecemos uns aos outros. Você pode ter um filho ou uma filha que se comporta muito bem em casa, que ajuda nas tarefas domésticas, mas que pode ser um delinquente nos finais de semana. Já vi isso acontecer com um amigo. Percebi que pessoas do mundo todo estavam familiarizadas com os problemas levantados no romance.

– O livro foi baseado em fatos que ocorreram em Barcelona. O senhor poderia explicar o que aconteceu e como isso o inspirou?

HK: Dois meninos cometeram mais ou menos o mesmo crime do livro. Porém, foram reconhecidos imediatamente pelo sistema de câmeras e presos no dia seguinte. Quando vi as imagens, fiquei impressionado. Poderiam ser os filhos dos meus vizinhos. Poderiam ser os meus filhos. Esse foi o ponto inicial para o livro.

– O senhor trouxe à tona a grande questão em que a maioria dos pais que conheço não gostam de pensar: o que meus filhos estão fazendo quando não estou por perto? Talvez seja impossível seguir todos os passos de crianças e adolescentes, ainda mais em tempos de internet. Em O jantar, o pai lê as mensagens de celular do filho. Quando falamos sobre adolescentes, existe um limite entre a curiosidade do pai e a privacidade do filho?

HK: Em todos os aspectos, tento respeitar a privacidade do meu filho. Mas, assim como qualquer outro pai, também sou curioso. Então, tento trazer alguns assuntos para a mesa com o intuito de deixar claro que não vou condenar o que quer que ele tenha para dizer. Bom, pelo menos não no início. Depois de um tempo, você sempre pode dar uma opinião, como: “Isso foi muito engraçado, mas talvez não tão engraçado para outras pessoas.” Entretanto, tenho certeza de que ele não me conta tudo e é assim que deve ser.

– Os personagens Paul e Serge, que são irmãos, não acreditam que delinquentes possam receber tratamentos e retornar à sociedade. Qual sua visão sobre isso?

HK: Há sempre exceções, mas acho que estamos vivendo em uma época em que certas espécies de monstros nunca deveriam voltar às ruas. É melhor aceitar que são o que são do que tentar tratá-los. Mas é claro que isso não vale para todos.

– A instituição familiar é de extrema importância para o personagem Paul. No entanto, ele é uma pessoa destrutiva. Pensei em Tony Soprano e Walter White, que também queriam proteger seus entes queridos. Para eles, os fins justificam os meios. Quando Paul decide se tornar cúmplice do filho, o senhor diria que a decisão foi fácil?

HK: Eu também pensei em Tony Soprano quando estava escrevendo o livro. A família vem em primeiro lugar. Você nunca vai chamar a polícia para entregar algum parente; as sujeiras e os segredos são mantidos e resolvidos em casa. No caso de Paul, ele se sente responsável pelas ações do filho, então luta para que o adolescente não seja sacrificado por conta da decisão de seu irmão Serge. Contudo, o irmão político de Paul não se interessa por esse jogo familiar.

– O passado violento de Paul contribuiu para as ações de seu filho?

HK: Acho que Paul se considera uma boa figura paterna, mas também tem consciência de que suas próprias ações, seus genes, podem ter tido efeito sobre o comportamento do filho.

– Após ler O jantar, tentei me colocar na situação dos pais. A seguinte pergunta passou pela minha cabeça: o que fazer quando você sabe que seu filho cometeu uma atrocidade? Acredito que não há resposta definitiva para essa questão. Concorda?

HK: Concordo! Neste caso não há regras. A questão importante é a seguinte: você ainda vai amar seu filho depois de ele ter cometido um crime? Acredito que sim! E outra: o que posso fazer para ajudá-lo? Afastá-lo das mãos da justiça nem sempre é a melhor solução. Manter um crime em segredo pode trazer ainda mais danos para os envolvidos.

– No imaginário popular, apenas os desfavorecidos são capazes de cometer atos de extrema violência. No entanto, os jovens Lohman frequentam uma boa escola e recebem amor, carinho e regalias dos pais. É aquela clássica batalha entre natureza e criação. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

HK: A violência está presente na natureza das pessoas, mesmo que seja uma pequena parcela, apenas para combater o tédio. Esse tipo de problema não existe durante uma guerra real, onde o tédio não entra na equação. De certa forma, acredito que esse é o preço que temos que pagar por uma sociedade “civilizada” e pacífica.

– O senhor acredita que a internet tenha contribuído para o aumento dos casos de violência gratuita?

HK: Tirar sarro de desconhecidos, professores etc. sempre foi algo comum entre jovens. Em tempos de celular e YouTube, a graça é compartilhar esses atos de violência para o maior número de pessoas.

– Os Lohman representam a típica família holandesa?

HK: Eu não chamaria de típica, mas há um grande número de famílias como a deles na Holanda. Sabe, pessoas politicamente corretas, que comem a comida certa, pensam que estão fazendo tudo certinho e acreditam que o racismo só existe no quintal do vizinho. Eles só ficam assustados e desconfortáveis quando algo ruim acontece e ameaça seus valores.

João Lourenço é jornalista, nascido no Paraná e criado em São Paulo. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Foi assistente de Stephen Todd, do Times e do Guardian. Já entrevistou todos os escritores que queria, menos a musa de todas as musas: Joan Didion. Ele também tentou estudar Literatura Francesa pelo simples prazer de ler e acreditar que iria passar todas as aulas discutindo Balzac. Sem data para retornar, agora está na Califórnia. Pretende estudar escrita criativa em Stanford. No tempo livre, troca figurinhas com seus vizinhos celebridades, Adam Johnson e Michael Chabon. E, assim como Lena Dunham, ele jura que é a voz dessa geração.

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Comentários

Uma resposta para “Menu degustação

  1. Entrevista recheado de spoilers, mais o livro é 10!

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