[vooema]

Por Pedro Gabriel

25 / fevereiro / 2014

coluna _19

Se a poesia tivesse um destino – este – seria o infinito, e não seus olhos. Lamento informar, senhora passageira: a leitura é apenas uma ponte entre a palavra realizada e a tão sonhada eternidade. A poesia existiria mesmo se não houvesse ninguém para decliná-la ou declamá-la. Ela não precisa da gente, ela se abastece do que sente e pranto. Ela não precisa de gente, ela se acompanha sozinha e pronto.

Seus olhos seriam úteis em outro momento, não agora que escrevo um poema. Um poema com asas, diga-se de passagem. Pois é, a poesia é uma espécie de pássaro: talvez um papagaio – desses que repete a alma do seu dono. Ou talvez seja mais poético acreditar que o poeta é o piloto das sílabas. Seu papel: levar as palavras desprotegidas para um lugar seguro.

(seus olhos?)

No saguão de embarque, os sentimentos já formam uma pequena fila. Todos já sabem o seu destino. O Amor, sempre ele, ocupa o assento 26B, e parece não se importar com a vizinhança. Bate um papo afetivo com a carência, que ainda se ajeita na poltrona perto do corredor, e oferece ajuda para o ego, que parece ignorar seus colegas de voo e coloca as malas no bagageiro sem responder. O Remorso fez check-in mais cedo e optou por uma poltrona perto da saída para que todos sejam obrigados a passar por ele ao menos uma vez nessa viagem. A Liberdade – essa passageira tão desejada – ficou ao lado da asa direita. Mas ela não fica parada muito tempo, e se levanta antes mesmo da fase da decolagem se dar por completa. Ela adora a sensação de se desafivelar por livre e espontânea necessidade. A Saudade não embarcou dessa vez. Já está do outro lado do mundo à espera do Passado, da Agonia ou de qualquer outra palavra dolorida. Todos os assentos estão ocupados. Minto: a Ausência se esqueceu do bilhete de embarque e, mais uma vez, deixou um vazio entre Você, na 18A e Eu, na 18C. O Tempo até se ofereceu para remediar a nossa distância na 18B. Negamos. Às vezes, é bom deixar o Nada entre nós.

Os motores estão com a força total disponível, na exata velocidade que eu preciso para alçar voo e ver cada verso se descolar da pista de decolagem – essa imensa página de concreto! Desligo o celular. Assim que o painel luminoso autorizar, ligarei a vida em modo avião.

Eu nunca escrevi um poema sequer para querer ser lido. Sempre escrevi para voar. Quando aprendi a escrever, na verdade, me foi ensinado a voar. E voar aos seis anos se faz sem rotas, sem fronteiras, sem medo. Bater asas aos 29 é mais perigoso. A gente sente tanta ânsia, tanta vertigem, contanto com uma pequena vantagem: os desenhos nas nuvens fazem mais sentido. Vemos nossa vida projetada em full-HD nessa imensa tela de algodão. Admiro um dragão. Será que ele vai engolir meu orgulho? Mergulho em outra imagem: quem aparece é seu rosto. Como você mudou! Agora é seu sorriso que se mostra. Sorrio de volta. Seu adeus entra em cena e acena. Recuso-me a devolver o gesto de despedida. Gosto quando você vive em mim. Se eu chorar, vai chover.

Engraçado: mesmo aqui, a dez mil pés, penso em quando eu ainda dormia em suas mãos, ali, a dez centímetros do seu peito. Elas formavam uma espécie de pequeno travesseiro. Acredite: era o travesseiro mais confortável já inventado pela humanidade. A essa altura, não adianta se lamentar. O passado ficou para trás em itálico, o presente é seu NOME escrito em caixa-alta, e o futuro em negrito é um risco – em todos os sentidos.

Senhora passageira, lamento informar:

Nosso amor foi uma espécie de ponte aérea, com escala em tantas tentativas. Em algum momento dessa viagem poética, entre Dumont e Drummond, desviamos da zona de turbulência, mas perdemos a conexão.

Preciso pousar o ponto final.

Pela tensão, obrigado.

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Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio.
Pedro escreve às terças.

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Comentários

22 Respostas para “[vooema]

  1. Não comprei passagem pro seu vôo mas sou passageiro em suas palavras que sempre me fazem voltar.

    Foi muito bom te conhecer Pedro Gabriel!

  2. oie posso comprar um bilhete ainda para esse voo , to meio atrasada mais nada é tarde quando se falar em viajar nos sonhos .

    Estou saindo aqui da cidadezinha chamada Corinto e embarcando para BH com muita vontade de conhece-lo pessoalmente agradecer por preencher todos os meus dias de poesias . obrigado

    mais um vez bravo !!!!

  3. “Como você mudou! Agora é seu sorriso que se mostra. Sorrio de volta. Seu adeus entra em cena e acena. Recuso-me a devolver o gesto de despedida. Gosto quando você vive em mim.” ♥

  4. Você me encanta, Pedro Gabriel. Suas palavras são meu refúgio. ♥

  5. A cada texto eu me apaixono mais pelas palavras tão bem colocadas, tão bonitas, e apaixonantes.

  6. “Desde a primeira vez que vi
    Seus dilemas
    Transcritos em poemas
    Me inspirei em cada morfema
    E redigi
    Aqui
    Acolá
    Ali
    A poesia
    Que transborda
    De mim”
    -Luiz Miranda-

    Só quero agradecer por ser uma referência e dizer que admiro muito seu trabalho, acompanho desde o começo e -PUTZ- cada vez mais você me surpreende. Ainda estou começando minha “carreira” de escritor, espero um dia escrever o mundo de uma forma tão boa quanto a tua.

    Sucesso sempre!

  7. Abençoado dom de” Escrevinhar” . Bom ter você ao alcance dos meus olhos e do meu coração. Será sempre muito bem vindo . ( BH-MG)

  8. Adoro os trocadilhos…

    Um meu aí…

    Meus versos têm dias
    Que são tão perversos,
    Ao ponto de me trazer
    Certo prazer ao escrever,
    Apesar da dor do amor
    Nunca parar de doer…

    Meus versos diversos,
    Outrora dispersos,
    Não me fazem sofrer
    Quando querem dizer
    Que eu sinto horror
    Em pensar te perder…

    Meus vários versos
    Às vezes diversos
    Em tanto querer,
    São somente pra te convencer,
    De que não se convença
    Que irei te esquecer…

    cassionery@facebook.com.br

  9. Esse me tirou do chão.. Se eu chorar vai chover… Um dos mais belos que vi aqui. Parabéns, sempre!! Agora é esperar pelo próximo livro!

  10. Tuas palavras me fazem chorar velho. Me fazem sentir vivo.
    Me fazem acreditar.
    (mas num são palavras?)
    – Sinto muito por quem enxerga apenas palavras, símbolos…
    Eu enxergo vida.

  11. Há algum tempo que procuro entender poesia…Acabo de encontrá-lo, através de um link. Estupenda sua forma e seu jeito de comunicar-se pela poesia, ainda que escrevendo em prosa…Estou admirada.

  12. Amo a maneira como escreves. Sou apaixonada por seus textos, não ouve um que me decepcionasse. Leria qualquer coisa escrita por você… Sempre inspirador… Esse texto em particular mexeu comigo, parece que tudo que disse foi para mim, me fez chorar. Esses seus textos, eles têm o poder de tocar a alma de quem os lê.

  13. “Pela tensão, obrigado!” Simplesmente fantastico!

  14. Ufa!!! É assim toda vez que termino de ler um texto seu. Acho que vou perder o fôlego, mas na verdade eu ganho mais, tipo gás. Ah, sem contar a imensa vontade de rascunhar. Você tem ideia de quantos Antônios nasceram depois que você se apresentou ao mundo?

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