Entre o passado e o futuro

Por Míriam Leitão

22 / novembro / 2013

Míriam escrevendo

Um vento leve entra pela janela aberta em frente à mata. Os pássaros já fizeram seu festival mais cedo, mas da mata saem os sons diversos da natureza viva. Minha mesa de trabalho fica encostada na janela. Ao lado, na tampa de um baú pintado de azul colonial, espalhei livros e pastas de consulta, organizados, pelos vários temas. Ao meu redor, HDs e tablets, onde tenho arquivos digitalizados, inclusive das entrevistas que já fiz. É parte do material que tenho estudado no trabalho de escrever meu próximo livro de não ficção.

Assim estou passando a maior parte das minhas férias. O silêncio, só quebrado pelos sons da mata, me ajuda na rotina de escrever e ler. Vou entrando e saindo dos capítulos, como se eles fossem quartos de um casarão.

Sei que a conjuntura brasileira está intensa nos últimos dias, com a prisão dos condenados pela Ação Penal 470. Vão se confirmando as previsões de baixo crescimento de 2013. Há alertas sobre os indicadores fiscais brasileiros. Em pontos do lugar onde estou, a internet é melhor e assim capturo notícias e me comunico com o mundo. Não quero estar longe dele, mas preciso desse distanciamento.

Ontem, a estante de livros de ficção me chamou de forma sedutora, mas resisti. Apenas peguei, por homenagem, o Carnê Dourado de Doris Lessing (que faleceu no último domingo, dia 17 de novembro). Mulheres Livres é o título do primeiro capítulo. Nós ainda estamos tentando, querida Doris. Com ela aprendi muito sobre o absurdo do racismo.

Depois manuseei um dos meus velhos amores. “É muito fundo o poço do passado.” Com essa frase Thomas Mann começa a tetralogia José e seus irmãos. Tem tanto significado! Apesar de o escritor alemão começar a coleção romanceando a história de Jacó, o pai de José e outros onze, aquela frase é perfeita, pensei. José conheceu o fundo do poço, literalmente, ao ser jogado lá pelos irmãos. Ele depois foi, como nos conta a Bíblia — texto no qual Mann se inspirou —, capaz de falar do futuro.

Dias atrás, sentei-me com Livia e Kathia (editora e preparadora da Intrínseca), no Rio, para olhar o trabalho de revisão de um capítulo de Tempos extremos, meu primeiro romance, que vai sair em maio. O livro é surpresa para mim também; eu não sabia que escreveria ficção algum dia, mas houve um momento em que a história se impôs. Ela se passa nos tempos atuais, mas é visitada por dois passados. E como é fundo, às vezes, o poço do passado!

Mas agora estou trabalhando com um olhar que tem que sobrevoar a conjuntura e fazer perguntas para o futuro. Será meu novo livro de não ficção, também a ser lançado pela Intrínseca. O trabalho em que estou mergulhada é imenso, desafiador e estimulante. Tenho que olhar para a frente. Às vezes, instintivamente, busco o horizonte levantando os olhos para a janela. Deparo-me com o verde sem fim e de vários tons das árvores da mata. Agora, a manhã vai alta, a mata fica mais silenciosa e Silvana me traz uma goiaba.

Alguns amigos me perguntaram se nas férias eu não deveria descansar, apenas, da rotina intensa do trabalho jornalístico em várias frentes: jornal, TV, rádio. Mas é assim que quero o meu tempo livre. Escrever é o que eu mais gosto. Escrever e ler. Esse livro que preparo agora exige muito: tenho prazo até o meio do ano para entregar e Bruno Porto, meu editor, tem feito perguntas delicadamente. Há capítulos com mais obstáculos que outros, admito. É um livro complexo, o que escolhi escrever, que exige que eu leia, entreviste, consulte dados e pense intensamente. Por isso, estas férias, que serão um pouco mais longas na televisão, me permitirão avançar. É a melhor chance que eu tenho, longe do inquieto cotidiano do jornalismo.

Escrever é prazer, mas é também uma difícil carpintaria. Há momentos em que você duvida que seja capaz. O segredo é nunca parar nas horas de dúvidas; e nunca parar de duvidar de si.

Míriam Leitão é de Caratinga (MG). História do futuro: o horizonte do Brasil no século XXI é seu terceiro livro de não ficção. Também é autora do romance Tempos extremos , publicado pela Intrínseca em 2014, e de três obras infantis. É jornalista de TV, rádio, jornal e mídia digital. Em quarenta anos de profissão, recebeu diversos prêmios, entre eles o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, de Nova York. Ganhou o Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2012 por Saga brasileira. É casada com Sérgio Abranches, tem dois filhos, Vladimir e Matheus, e um enteado, Rodrigo. É avó de Mariana, Daniel, Manuela e Isabel.

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Comentários

3 Respostas para “Entre o passado e o futuro

  1. Olá, primeiro sou seu fã numero um, e assisto todos seus comentários no jornal matutino rs. Também escrevo contos, crônicas e poesias, não tenho como editar. Peço a Deus que um dia o faço antes de partir rsrs Abraço e mais uma vez parabéns!!!

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