Tobias, por Ernest

Por Leticia Wierzchowski

2 / agosto / 2013

Leticia Wierzchowski apresenta alguns dos personagens de Sal, seu novo romance.

Ele era um barqueiro, diria Ivan, que sempre foi tão pragmático. Para Flora, Tobias era um personagem como todos nós. Eu, que sempre gostei de histórias, que nunca tive dinheiro no banco ou moradia própria, mas que podia declamar Shakespeare e Donne e conhecia Plínio e deliciava-me com Homero — eu, a cada vez que penso no Tobias, penso no barqueiro de Hades, o velho Caronte.

Tiberius, apaixonado por astronomia, diria que Caronte era o satélite natural de Plutão. Eu digo que Tobias era o nosso Caronte. Já estava aqui quando eu cheguei, atravessando incontáveis vezes o mar do vilarejo até La Duiva. Levava os vivos e os mortos, quando alguém morria nas bandas do lado de cá. Quando Don Evandro faleceu naquela manhã fatídica, sem que ninguém visse meti-lhe uma moeda na boca, sob a língua: a paga de Caronte. Porque eu não queria que o patrão andasse pela praia feito uma alma penada pelos próximos cem anos. E Tobias levou Don Evandro, e ele ganhou sua cova no pequeno cemitério da vila, onde viria a se encontrar com Ivan muitos anos depois. Quando Doña morreu, nada de moedas. Tobias levou-a também, sem perguntas. Mas uma parte de Doña ficou por aqui, assombrando os vivos. Tobias me disse, certa vez, que a viu numa noite de tormenta lá no alto do morro, magra e luminosa, um fantasma soprado pelo vento, os olhos de um vermelho feito brasa.

Tobias, o nosso barqueiro. Indo e vindo pelos anos e através das marés, levando e trazendo mantimentos, notícias e visitantes. Ah, ele viu e ouviu muita coisa. Levou Lucas para o seu exílio, e Orfeu e seu amor partiram no seu barco naquele fatídico alvorecer de inverno. Tobias viu Flora na sua última noite, jogando ao vento as folhas do seu único e inédito romance. Um dia depois, levou-a também para o outro lado. Tobias, o nosso Caronte… Velho como o tempo e silencioso como a lua.

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Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre e estreou na literatura aos 26 anos. Já publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. É autora de SalNavegue a lágrima e de A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.
Leticia escreve às sextas.

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