Julieta, por Eva

Por Leticia Wierzchowski

4 / julho / 2013

Nas próximas semanas, Letícia Wierzchowski apresentará, com exclusividade para o Blog da Intrínseca, alguns dos personagens de Sal, romance que será publicado em julho.

Calhou que eu tenho de apresentar-lhes Julieta, a minha irmã doente. Estaria Flora manipulando, uma vez mais, as coisas por aqui? Eu, a bruxa malvada, a garota insolente e insaciável que tentou roubar o professor inglês dos braços do seu amor  — eu, a sereia de La Duiva, a Lilith de Flora. Mas cumprirei com o meu papel  —  vou contar-lhes um pouco de Julieta.

Julieta Godoy, morta aos vinte e um anos. Um acidente no parto e a segunda criança de Cecília teve uma existência triste, eterna vítima daqueles segundos sem oxigenação que danificaram seu pequeno cérebro, estraçalhando seu futuro. Não mentirei por aqui  — quando vocês lerem o livro, saberão que sou implacável, mas eu diria que sempre fui apenas sincera. O mundo desaprendeu a sinceridade, e todos andam por aí aos salamaleques e sorrisos, uns bobos da corte que pelas costas alheias fazem as mesmas intrigas shakespearianas de sempre. Eu não. Eu dou o tapa e mostro a mão — esta mão onde Leon colocou uma grossa aliança de ouro quando me levou embora de La Duiva para sempre.

Portanto, digo-lhes: Julieta foi uma coitadinha, enfiada em suas fraldas, babando pelos cantos, com aqueles seus tristes olhos ausentes. Diziam coisas sobre ela, é claro… Que enxergava o fantasma da avó, Doña, a malvada. Que este fantasma espicaçava-lhe as madrugadas, e que era por isso que ela gritava e gritava e gritava até deixar-nos a todos exaustos.

Experimentem, meus queridos, dormir com uma ladainha daquelas… Os gritos roucos de Julieta pareciam vir do além — Julieta era o nosso fantasma, a nossa quase-presença, o motivo dos eternos olhos úmidos de mamãe e do constrangimento seco de papai. Ela era como uma dessas massas de bolo que não crescem direito: a princípio, no calor do forno, incham e sobem e brilham, depois caem para dentro de si mesmas, deixando atrás de si apenas a superfície das suas promessas não cumpridas. Havia no seu rosto arruinado a sombra da beleza de mamãe, os traços delicados de mamãe misturados num amálgama, como se ela não fosse o quadro, mas a paleta de um pintor talentoso. Se Doña vinha do outro mundo para incomodá-la, vinha por causa daquele espanto eterno que saltava dos seus olhos.

Bem, era maçante estar com Julieta. Chega um tempo em que você cansa de ter pena e simplesmente segue em frente. Ela foi um bom brinquedo na nossa infância, era a nossa boneca desengonçada e quieta — depois a esquecemos, e mamãe seguiu escrava da rotina de amá-la e alimentá-la. Pobre mamãe, eu lhe tinha pena, mas ela parecia até mesmo apreciar aquela filha doente e a sua eterna infância.

Então Julieta morreu; morreu sem gritos numa noite, depois de passar duas décadas ganindo pelas madrugadas. O seu quarto foi esvaziado, e a cama e todas aquelas coisas de que ela necessitava para viver foram doadas para um lar de doentes em Oedivetnom. Quando ela morreu, Lilia também partiu. A casa começou a esvaziar até que restou apenas mamãe. Mas acho que Julieta nunca foi embora realmente, seu espiritozinho confuso e assustado permaneceu lá em cima, no promontório, gritando com o vento nas noites de inverno, como ela sempre gostara.

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Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre e estreou na literatura aos 26 anos. Já publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. É autora de SalNavegue a lágrima e de A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.
Leticia escreve às sextas.

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