Doña, por Julieta

Por Leticia Wierzchowski

11 / julho / 2013

Nas próximas semanas, Letícia Wierzchowski apresentará, com exclusividade para o Blog da Intrínseca, alguns dos personagens de Sal, romance que será publicado em julho.

“Você morre no final, Julieta. É assim que eu ganho.” A velha falava sempre isso. Parada ao lado da minha cama à noite, a velha falava. Tínhamos tempo, ela e eu, todo o tempo do mundo. A doença e a morte são duas eternidades. “Você morre no final, Julieta. É assim que eu ganho.” A velha repetia e eu gritava.

Tarde da noite, eu gritava, gritava. No escuro. Sozinha. Demorava muito até que acendessem a luz, e era sempre mamãe. “Não grite, Julieta”, ela pedia. Mamãe não sabia, nunca soube, que, junto com o desenho da sua boca, eu herdei o seu medo da velha. Doña. Foi ela quem apertou o cordão. Aquele cordão de sangue e de seiva que me unia a mamãe, foi a mão dela que fez aquilo. Foi culpa dela, da velha que era minha avó e que jurou se vingar da mamãe. Lucas escapou, mas eu não. E, depois de mim, Doña deixou os outros em paz.

Doña. Ela tinha um nome: Alba. A mãe do meu pai. O meu fantasma. Cada grito que eu dei, a culpa foi dela. Saía das reentrâncias entre os tijolos das paredes, saía de dentro do copo de suco, da banheira, do armário do quarto. “Buu!”, ela fazia. “Juuu”, ela chamava. Ficávamos horas nos olhando, eu olhando pra ela, ela olhando pra mim. “A nossa brincadeira”, ela dizia. “O nosso pequeno jogo, meu e seu, menina maluca… E você morre no final.

Ela era má, muito má. Nem bonita, nem feia. Mas triste, de uma tristeza de caruncho. Triste como um campo incendiado, como uma árvore caída com as raízes secando ao sol. Doña. Mas o nome dela era Alba, embora nunca ninguém mais se lembre disso por aqui.

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Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre e estreou na literatura aos 26 anos. Já publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. É autora de SalNavegue a lágrima e de A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.
Leticia escreve às sextas.

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