Cecília, por Tobias

Por Leticia Wierzchowski

29 / julho / 2013

Leticia Wierzchowski apresenta alguns dos personagens de Sal, seu novo romance.

Cecília, era o seu nome. Ela chegou em La Duiva ainda usando meias grossas de menina e os cabelos atados numa trança. Cresceu rápido e virou uma mulher bonita. Eu não me surpreendi quando meu contaram que Ivan, o filho de don Evandro, estava apaixonado por ela, a empregada da casa. Não porque os Godoy vivessem naquela ilha, meio retirados do mundo, mas porque a beleza da moça era de chamar a atenção mesmo em cidade grande. Imagina os dois lá, tão jovens e todo aquele sangue correndo nas veias… Foi dito e feito. Logo, estavam juntos, e o velho enterrado sob sete palmos de terra. Mas ele teria gostado de ver os filhos que aqueles dois fizeram, teria mesmo! Encheram La Duiva de risos e alegria. Claro, teve a menina doente, mas até nisso dava gosto de ver a Cecília: nas fainas com a filha. Que boa mãe que aquela rapariga saiu!

Depois os filhos cresceram, chegou aquele estrangeiro, o professor que falava enrolado, e as coisas mudaram por lá. Um a um, os filhos foram deixando a grande casa no alto do morro, e Ivan morreu tão de repente quanto o pai. Cecília ficou lá. Ainda era muito bonita, dava pena aquela solidão… Sempre com o seu tricô, eu ia e vinha todas as semanas, e ela lá, no ancoradouro, com uma fome de verdes e azuis, de amarelo-canário e violeta. Vivia de tecer — cada ponto, uma memória costurada, materializada. Eu insistia com ela que saísse, que passeasse na vila, uma prosa com os velhos conhecidos, essas coisas que alargam a alma da gente. Mas ela? Nunca. Parecia uma âncora enfiada na terra, segurando La Duiva para que até mesmo a ilha não inventasse de tomar outro rumo.

Na vila, começaram a falar. Uns diziam que estava ficando louca, matusquela; outros, que tinha um amante, que andava pela praia à noite esperando seu homem sob o luar. As gentes sempre inventando… Veneno puro! Eu negava: “Pobre Cecília, fica lá sozinha com suas agulhas e o farol.”

Eu podia provar, podia mesmo. Mas deixei pra lá. Enquanto falavam dela, Cecília parecia mais viva, mais real. Porque mesmo pessoalmente ela estava se apagando, igual a uma pintura sob a chuva. Borrava-se, evaporava. Comecei a achar que não duraria muito. Tocava o barco para La Duiva com o coração pesado, aquele medo de não encontrá-la no ancoradouro, de ter de subir pelo caminho entre as sarças até a varanda, e adentrar a casa, pisar as lajotas que o velho don Evandro mandou vir de Oedivetnom, cruzar a sala ampla com seus móveis antigos e entrar naquele quarto nunca visto, apenas imaginado. Já carreguei muito morto nesta vida, neste barco aqui — mas Cecília… Eu não queria, não queria mesmo. Preferia aposentar meu barco e passar o resto da vida no café lá da praça, jogando cartas com os outros velhos. Mas, como é mesmo que se diz?  Em qualquer poça d’água Deus pode fazer um peixe.

Então, um dia, quando Cecília já estava desbotada feito memória de infância, Deus estalou os dedos para ela. Eu estava lá, eu vi. Sou testemunha, e o mar também.

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Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre e estreou na literatura aos 26 anos. Já publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. É autora de SalNavegue a lágrima e de A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.
Leticia escreve às sextas.

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