Tiberius, por Flora

14 / junho / 2013

Nas próximas semanas, Letícia Wierzchowski apresentará, com exclusividade para o Blog da Intrínseca, alguns dos personagens de Sal, romance que será publicado em julho.

A mamãe bordou-o em amarelo. Quando eu penso nele, penso em estrelas. Aldebaran, Sirius, Pollux, Nintaka. Talvez amarelo seja mesmo bom para uma estrela — não é dessa cor que as crianças as pintam nos desenhos?

Tiberius. Um nome curioso — meus pais pareciam gostar disso, de escolher nomes exóticos. Não era bem uma tendência, pois temos Lucas e temos Eva, que vem a ser o nome mais clássico do mundo, mas era como um vento que soprava às vezes e sacudia tudo: Julieta, a jovem apaixonada de Shakespeare, e Orfeu, o argonauta. Assim tivemos também Tiberius, o imperador romano. Dizem os livros que ele foi um grande general, um estrategista. Tristissimus Hominum, assim chamou-o Plínio, o Velho. O mais triste dos homens.

Engraçado isso, porque sempre achei o meu irmão caçula meio triste. Creio que o peso de todos os pressentimentos vergou-o como um desses pinheiros da costa que, de tanto serem assolados pelo vento, já crescem tortos. Porém, têm grande resistência, apesar do caule fino, e talvez por isso mesmo dançam conforme as tempestades, cedem espaço ao vento e suas raízes seguem firmemente entranhadas no chão.

Então é isso, Tiberius é o nosso pinheiro. Ele era aprazível como uma sombra numa tarde de verão, aquele menino calado e atencioso. Carregava seus livros de astronomia para a escola local, e os garotos mais velhos se riam dele. Tiberius nunca lhes fez caso. Era tão pálido quanto um lírio, e tão bonito também ­­— saiu mais à mamãe. Sim, sim, sim, todos sabíamos que era o seu filho preferido… Os olhares açucarados que ela lhe deitava! Mas acho que Tiberius merecia todo aquele amor, ele que era o melhor de nós. No meu romance, dei-lhe o dom da premonição. A vida deu-lhe ainda mais coisas do que eu, mas cobrou caro por elas.

Leticia Wierzchowski assina uma coluna semanal no blog da Intrínseca.
Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Seu romance mais conhecido é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

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