Lucas, por Tiberius

21 / junho / 2013

Nas próximas semanas, Letícia Wierzchowski apresentará, com exclusividade para o Blog da Intrínseca, alguns dos personagens de Sal, romance que será publicado em julho.

Meu irmão mais velho. Sempre ao lado do papai. Entendia de barcos, de ventos e de tormentas. Às vezes, era como se o pai falasse pela boca do Lucas. Os dois eram tão parecidos que tinham o mesmo riso.

Lucas deixou a infância cedo e drasticamente, crescendo com uma faina que espantava mamãe, sempre às voltas com as bainhas das suas calças. Tinha um tipo de beleza máscula, um tantinho mal-acabada, que fazia com que as mulheres se inquietassem nas cadeiras quando começavam as danças na quermesse e meu irmão Lucas escolhia seu par.

Mas lá em casa não achávamos ele tão interessante, os irmãos e eu, pois era um cara quieto, reservado. Acho que quase não dava por mim em La Duiva, e não recordo de uma única brincadeira, um jogo que tenha feito comigo, um passeio, nada.

Lucas… Ele partiu numa noite, isso foi depois que conheceu Laura. Depois daquela briga com o pai e de tudo o que veio em seguida. Não gosto de lembrar essas coisas. Eu pressenti algo, um sopro de tragédia, como quando o pai parava lá no ancoradouro e, sorvendo o ar na tarde quieta, podia assegurar-nos que uma tormenta estava chegando, escondida no azul do céu, na brisa quente vinda do mar.

Sobre Lucas, eu sempre soube muito pouco. Cheguei a ver uma mulher num sonho certa vez, acho que era Laura. Como uma cigana, os longos cabelos escuros, o riso alegre como o chacoalhar de suas pulseiras. Ela veio feito um temporal, e Lucas esteve à deriva por muito tempo por sua causa. Não que lhe faltassem moças na vila ou até mesmo em Oedivetnom, e havia ainda as turistas que vinham no verão conhecer La Duiva — Lucas às vezes se divertia com uma ou outra. Mas Laura marcou-o. No dia em que a conheceu num café em Oedivetnom, ele voltou para casa mais calado — tinha ido com o pai visitar uma seguradora dessas que cuidam de cargas marítimas. Naquela noite, sentado à mesa com um cálice de vinho, enquanto o vento do inverno soprava lá fora a sua cantilena, Lucas errou as contas e blasfemou baixinho. Era sempre tão contido, mas o surgimento de Laura pareceu arrefecer os contornos do meu irmão mais velho, e depois disso Lucas fez coisas que eu não o imaginaria fazendo nem nos meus sonhos mais malucos.

Leticia Wierzchowski assina uma coluna semanal no blog da Intrínseca.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Seu romance mais conhecido é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

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