Eva, por Lucas

Por Leticia Wierzchowski

28 / junho / 2013

Nas próximas semanas, Letícia Wierzchowski apresentará, com exclusividade para o Blog da Intrínseca, alguns dos personagens de Sal, romance que será publicado em julho.

Às vezes, quando estou no Auguste, aparece alguma passageira como Eva. Não parecida com Eva, mas como ela… Falo desse tipo de mulheres que emana uma vibração, uma energia  —  é quase como se tivessem um cheiro próprio, um odor que despertasse certos instintos e glândulas. Portanto, às vezes, alguma dessas fêmeas entra no Auguste para um passeio, e então a recordação dela bate em cheio em mim, como um tapa na cara.

Como Eva, todas essas mulheres têm aquele olhar lânguido e, onde passam, uma esteira de homens põe-se a suspirar. É claro que alguns, os mais afoitos, vão atrás em busca de uma chance. Mulheres-sereia, assim eu as chamo. Se um marinheiro distraído deixar-se enganar por seu canto melodioso de promessas, é tragédia certa. Naufrágios incontáveis aconteceram por causa das sereias e, se você não acredita nelas, vá ler um pouquinho de mitologia. Se você não acredita mesmo nelas, gostaria de levá-lo, não pelo Tejo até Belém como faço hoje em dia pilotando o Auguste, mas pelo tempo até a distante e perdida La Duiva da minha juventude. Sete, oito anos atrás, cortemos a maré dos anos rumo ao sul das minhas lembranças…

O mar e o céu azul e todo aquele silêncio novo em folha, o dourado da tarde multiplicando-se na areia marcada pelas gaivotas e pelo vento. Assim era La Duiva, com o velho farol para além dos molhes, onde as medusas vinham morrer sob o sol, e as dunas lisas, o morro recortado pelas pedras, verde aqui e ali de sarças, o vulto da casa lá no alto a espiar o mar como um grande bicho dorminhoco. Em algum lugar disso tudo, em algum metro quadrado daquela praia, estaria Eva… Seus longos cabelos vermelhos gritando sob o sol do verão, o belo corpo esguio, bronzeado, liso e lento. Sobre uma toalha, Eva de biquíni. Ela não lia nenhum livro, não era esse tipo de garota  — passava as tardes em comunhão com o céu e o mar. Linda, tão linda quanto aquela praia, e  ainda mais agreste.

Eu ficava com o pai lá na oficina ou no ancoradouro, trabalhando duro por horas a fio. Havia sempre outros homens por lá, marinheiros jovens e velhos, e homens de terno anotando cifras em planilhas complicadas  —  era a gente das seguradoras. Havia sempre um motor aberto ou uma carga a ser conferida, salva de alguma das muitas tormentas que açoitavam a nossa costa, pois era assim que papai ganhava o seu dinheiro: salvando coisas do mar.

No meio disso, volta e meia um dos marinheiros jovens saía para dar um passeio pela praia. Depois de uma desculpa qualquer, o rapaz corria para ter com Eva. Ela era farta e generosa em seus favores e, quando escolhia alguém, as suas impronunciáveis promessas eram muitas… A sua beleza tornara-se famosa em toda a região. Eva trocava rapidamente de amores, mas, de qualquer modo, o ancoradouro e as oficinas do papai forneciam-lhe um constante e fácil fluxo de vítimas.

Ah, ela era uma sereia caprichosa… Queria sempre mais e mais. Houve um afogamento certa vez, tinha morrido um rapaz de La Malopa que estivera em La Duiva com Eva por três ou quatro tardes ardentes. Depois chegou-lhe um bilhete, o último bilhete que o coitado escrevera antes do suicídio, um textinho desesperado de amor. Foi Tobias, o barqueiro, quem trouxe o envelope para Eva. Lembro-me dela lendo aquelas linhas aos suspiros, depois passou-me a folha de papel em que a letra disforme se esparramava em declarações desesperadas, e disse:

“Leia, Lucas. E depois me explique como alguém pode ser tão tolo. Será que ele não sabia que tudo não passava de uma brincadeira entre nós?”

Parecia triste, a bela Eva, mas não chorou uma lágrima  — acho que nunca a vi chorando. Mas, saibam, eu gostava dela. Era sincera e mordaz, uma boa companhia quando a gente não estava apaixonado por ela. Paixão é uma espécie de fraqueza, e minha irmã sempre detestou os fracos.

Às vezes vejo uma mulher ou outra como Eva aqui no Auguste, eu já disse, e trato de manter uma boa distância. Um navegador que se preze aprende rápido a fechar os ouvidos aos perigos do outro mundo.

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Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre e estreou na literatura aos 26 anos. Já publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. É autora de SalNavegue a lágrima e de A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.
Leticia escreve às sextas.

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