Entrevistas

Perfil: Leticia Wierzchowski

10 / maio / 2013

Crédito: Carin Mandelli

Descendente de uma família de Joãos, Leticia Wierzchowski elabora seus personagens com a delicadeza e destreza das mãos firmes acostumadas ao tricô. Fascinada pelo mar, por praias desertas e pelo silêncio da fronteira entre Brasil e Uruguai, a premiada escritora gaúcha, autora de 11 romances e novelas e de 6 livros infantis, conversou com a equipe da Intrínseca sobre o difícil início de sua carreira, a paixão pelos livros — que move sua família e a levou ao altar — e seus novos projetos.

Autora de A casa das sete mulheres, romance que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo que foi exibida em 30 países, Leticia se prepara para a estreia de O tempo e o vento, filme baseado na obra de Erico Verissimo com roteiro assinado por ela e colaboração de Tabajara Ruas, e para a publicação de Sal, seu novo livro, que será publicado em julho pela Intrínseca.

Na entrevista abaixo, a autora dá dicas para os novos escritores e apresenta as referências literárias que a motivaram a escrever e “libertar das arestas do óbvio o cotidiano da minha própria vida”. Confira:

Intrínseca Como você descobriu a literatura? E como é a relação da sua família e de seus filhos com o mundo dos livros?

Letícia – Livros sempre fizeram parte da minha vida, embora meus pais não fossem leitores assíduos. Eu era uma criança que gostava de histórias e pedia livros de presente — quando aprendi a ler, prescindindo da ajuda dos adultos, ainda lembro, foi um alívio para mim. Então, comecei a ler muito. Fiquei sócia de duas bibliotecas, e lá eu abastecia as minhas tardes com ficção. Isso seguiu comigo, até que, um dia, lá estava eu escrevendo as minhas próprias histórias.

Aqui em casa, nossa família adora livros. Aliás, conheci o Marcelo, meu marido, porque ele leu o meu primeiro romance (O anjo e o resto de nós) e me mandou um e-mail. Trocamos vários e-mails — ele morava em São Paulo e eu, em Porto Alegre — até que ele veio jantar comigo, e começamos a namorar. Ou seja: a literatura tem essa simbologia na minha vida! Temos dois meninos, o João (11) e o Tobias (5), e ambos gostam de livros. Temos uma casa cheia de livros. João é um grande leitor. Tobias tem demonstrado muita simpatia pelos livros e gosta de largas sessões de leitura.

I Em uma entrevista, você afirma que a obra de Gabriel García Márquez a influenciou muito por mostrar que era possível transfigurar a realidade cotidiana. Quais foram as demais obras que a motivaram a escrever? E como? E quais livros e autores influenciam o seu trabalho hoje? Quais dessas referências ressoam em Sal?

L – Livros me motivaram a escrever à medida que me motivavam a ler mais. Lembro ainda de Cem anos de solidão — eu tinha alugado o volume na biblioteca numa sexta-feira, era inverno e choveu todo o final de semana, mas eu nem vi o tempo passar, enfiada em Macondo. Com García Márquez, acho que vislumbrei pela primeira vez essa possibilidade da fantasia no cotidiano — veja, eu lia por amor, sem orientação alguma, mas Márquez me fez ir atrás de Carpentier e outros. Foi um tempo longo que eu passei enfiada entre páginas de realismo mágico, e esse tempo mudou a minha vida — comecei a sentir vontade de escrever também e, talvez, dar um verniz de fantasia à realidade, libertar das arestas do óbvio o cotidiano da minha própria vida.

Mas, é claro, ao longo de todos esses anos, muitos livros e autores me marcaram além do García Márquez. Para citar alguns: Tabajara Ruas, Sommerset Maugham, Philip Roth, Virginia Woolf, Nabokov, Evelyn Waugh, John Banville, Eça de Queiroz… Nossa, eu poderia continuar indefinidamente. Sem falar de O tempo e o vento, do Erico Verissimo, um livro que me marcou muito e que voltou à minha vida tempos depois. Uma autora que tenho lido muito recentemente é a canadense Alice Munro.

Em Sal, há uma forte inspiração na obra de Sophia de Mello Breyner, poeta portuguesa cuja obra (que fala do mar, dos navegadores, dos gregos e romanos) está sempre na minha cabeceira. Há também muita coisa das minhas paixões pessoais no romance. Eu sou absolutamente fascinada pelo mar, por praias desertas e pelo verão. Adoro cruzar a fronteira do Brasil e entrar no Uruguai, um país de azul, verde e silêncio.

Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

I Como foi quando você decidiu de fato abdicar do trabalho na sua confecção e se tornar escritora?

L – Eu fiz muitas coisas antes de tentar ser escritora. Abandonei meu curso na universidade federal, entrei em outras universidades, estudei modelagem, corte e costura e montei uma confecção. Estive, durante todo esse tempo, atrás de expressar a minha criatividade de um modo pleno. Foi quando comecei a escrever — um dia, lá na confecção, após o expediente — que me dei realmente conta da liberdade criativa do escritor: eu podia criar personagens, casas, roupas, cidades, vidas inteiras, e não havia limite de orçamento; as possibilidades começavam e acabavam em mim. O escritor brinca um pouco de ser Deus — há um belo poema sobre isso, da polonesa Wislawa Szymborska, A alegria da escrita. Um trecho dele diz assim: Então existe um mundo assim, sobre o qual exerce um destino independente? Tempo que eu teço com uma corrente de sinais? Existência que, a meu comando, não terá fim? A alegria da escrita. O poder da consolidação. A vingança de uma mão mortal.

Escrever é poder transfigurar a realidade, é criar outras realidades. A literatura pode ser muito poderosa, ela exige, mas também entrega ao escritor grandes momentos de satisfação pessoal.

Bem, quando comecei a escrever, tudo se encaixou dentro de mim, depois de anos de busca. Demorou um tempo, claro, para que o mundo exterior abrisse uma primeira brecha para o meu trabalho… Enfim, depois de passar a adolescência e a juventude devorando livros, pulei para o outro lado. Foi um começo bem difícil. Não é fácil um autor deixar de ser inédito. Quando finalmente consegui publicar meu primeiro romance, conheci o Marcelo, meu marido (o primeiro leitor que me mandou um e-mail!). Marcelo, de algum modo, se apaixonou primeiro pela escritora, depois pela mulher. Isso de certa forma legitimou em mim esse meu desejo. Encontrei no Marcelo um companheiro que me incentivou a seguir o meu caminho. E eu fui em frente.

I Como é sua rotina para escrever?

L – É uma rotina maleável, porque eu tenho dois filhos e compromissos com a casa, com as crianças. Mas eu costumo fazer ficção no período da tarde, quando a casa fica mais silenciosa, ou muito cedo pela manhã.

Cena da série A casa das sete mulheres, com Mariana Ximenes e Camila Morgado

I De onde costumam surgir ideias para seus livros? Você tem algum hábito de pesquisa, por exemplo?

L – Alguns livros exigem pesquisa — livros que se erguem sobre fatos históricos, como A casa das sete mulheres, Um farol no pampa e Uma ponte para Terebin, romance que conta a história do meu avô polonês e que se passa na Segunda Guerra Mundial. Mas, mesmo quando eu pesquiso, sempre começo lendo a ficção a respeito. Ou seja: vou para o romance, vou ver os mundos que outros autores criaram, vou respirar esses ares, e depois vou para a História, para os fatos.

Mas há livros que não exigem uma pesquisa extensa, embora o autor sempre esteja buscando material para isso ou aquilo. Uma cena num consultório médico, por exemplo, exige suporte.

Agora, cada um dos meus livros têm a sua gênese. Às vezes, uma frase que fica dentro de mim por anos, uma memória, uma cena podem ser o começo de um livro.

I Woody Allen costuma guardar seus bloquinhos de ideias em uma gaveta — e é a ela que por vezes ele recorre em busca de inspiração. Você tem o hábito de armazenar ideias? Como?

L – Eu guardo algumas ideias, mas não com sistemática. Revistas, matérias de jornal, um poema, uma história que me contam… Minhas ideias surgem muito nebulosamente, às vezes estimuladas por um filme ou livro. Quando estou num hiato criativo, fico simplesmente lendo e vendo filmes por um tempo.

I Quais dicas você daria aos novos escritores?

L – Ler e escrever. Mas ler mesmo — internet é legal e atual, tem muita gente boa escrevendo blogs, mas tem que ler Borges, Adélia Prado, Guimarães Rosa, Philip Roth, Greene, Saul Bellow, Henry James. Tem que ler. Ler inspira. Agora, publicar é uma luta. É preciso persistência, mas geralmente o escritor não sabe prescindir da escrita, então é como aquele ditado “água mole em pedra dura…”. Uma hora vai.

I Além da literatura, quais são suas paixões?

L – Olha, eu sou uma pessoa muito quieta. Acabo muito em casa com meus filhos, meu marido, meus livros, filmes e bordados. Eu gosto, adoro uma praia. Ler no sol a tarde inteira, adoro. E gosto de praticar esportes. Faço isso diariamente: nado e pratico ashtanga ioga. Hoje em dia, eu adoro é viajar com o Marcelo e os meninos.

I Você ainda desenha? Além das palavras, quais são suas outras “ferramentas” para expressar a criatividade?

L – Eu parei de desenhar. Minha criatividade se materializa de diversas formas: gosto muito de bordar e de fazer tricô. Bordo para os pequenos sempre. Coloco boas energias nos pontos. Bordar é uma forma de orar.

I Em uma entrevista, você se diz muito fã de Erico Verissimo, principalmente pela profundidade de seus personagens. Como foi a experiência de roteirizar uma obra dele? Quais são suas expectativas para o produto final e para a estreia de O tempo e o vento?

L O tempo e o vento é um livro seminal. Aqui no Sul, então, nem se fala. Roteirizar O tempo e o vento é uma façanha difícil — nosso filme conta só “O continente”, mas já são 175 anos e dezenas de personagens. Isso é o mais difícil, tantas linhas de vida que se cruzam…

Enfim, no começo deu um medo terrível. Mas eu precisei me apropriar da história, ter coragem de mudar coisas — não a essência —, ver coisas por um outro prisma para poder erguer o roteiro. Alguns vão gostar, outros não. Assim é a vida, e quem tem medo de críticas não cria mais nada. Foi uma experiência fascinante, e parte dela eu dividi com o Tabajara Ruas. Entre dois ídolos — Erico e Taba — então, imaginem… Jayme está ansioso: final de setembro teremos Bibiana e Capitão Rodrigo nas telonas.

Imagem das gravações de O tempo e o vento

I Como foi seu envolvimento com a realização do filme e com a equipe?

L – Eu conheço o Jayme Monjardim desde A casa das sete mulheres, pois ele dirigiu a série. Jayme é um cara joia, que sabe tirar o melhor dos seus parceiros. E o Capitão Rodrigo é o Thiago Lacerda, amigo muito querido. Tem também a Vanessa Lóes, a Fernanda Montenegro, aquela deusa… Foi um trabalho incrível, e para mim, que sou escritora e, a priori, trabalho na solidão, é bom trocar ideias e ver gente de vez em quando.

I Em uma de suas colunas, você disse ter um grande respeito por objetos e pelas histórias que eles evocam. Você poderia citar alguns objetos que marcam períodos importantes de sua vida?

L – Eu tenho, aqui comigo, muitas coisas que foram do meu avô polonês, figura que eu admiro muito e sobre quem escrevi meu romance mais trabalhoso. Fotos dele na guerra, a caneta dele de ouro, o missal da minha avó… E coisas dos meninos, coisas pequenas, a primeira meia minúscula, a chupeta, o casaco que eu tricotei para sair do hospital, um desenho, os cartões que o meu marido me escreveu ao longo dos anos… Tenho tudo. Quando estou meio triste, gosto de olhar essas coisas.

I Em Sal, gerações de uma mesma família estão atreladas a um farol. Há algo, um lugar ou alguém que desempenhe esse papel na história de sua família?

L – Há o Jan, meu avô polonês, que para mim sempre foi muito importante. Gosto de pensar nele, de pensar que ele, de algum modo, me ajuda na vida. O que temos, talvez, é um nome que sempre esteve nas gerações da minha família: João. Assim, sem complemento. Na Polônia, eles eram Jans. Uma série de Jans que se perdem no tempo. Depois aqui. O primeiro Jan que nasceu no Brasil teve que se chamar João, por causa do Estado Novo. Depois veio um Jan nos anos 1980. E meu primogênito se chama João.

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Comentários

9 Respostas para “Perfil: Leticia Wierzchowski

  1. Que bom saber que Leticia Wiezchowski está fazendo o roteiro de O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo (meu autor favorito) e, mais ainda, saber que agora faz parte da Intrínseca.

  2. Legal! Nos últimos anos a Leticia é a minha escritora preferida, mas infelizmente ainda não consegui ler todos os livros. Acabei de receber o e-book “Sal” pela Amazon que comprei ainda na pré-venda. Vamos ver se vai pro time dos livros preferidos.

  3. ola leticia,uma pergunta, nunca se interessou em refazer a novela Véu de Noiva, de Janete Clair? Parece ser uma novela BEM INTERESSANTE, por favor pense bem… Foi da Rede Globo em 1968. obrigado…

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