Notícias

Casamento no Corredor da Morte

29 / maio / 2013

Apesar de seu amor pelo cinema, Lorri Davis não tinha o hábito de assistir a documentários. Mas em fevereiro de 1996 o convite de uma amiga mudaria sua vida. Numa tela do circuito independente de Nova York, a jovem arquiteta que elaborava projetos para astros de Hollywood conheceu a verdadeira história do West Memphis Three, caso envolvendo o brutal assassinato de três crianças que foi interpretado como o resultado de um culto satânico e se transformou no julgamento mais longo do estado do Arkansas. Nessa noite, Lorri não conseguiu dormir. O caso, que havia condenado três jovens pobres, recendia a injustiça.

Produzido pelos cineastas Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, o documentário da HBO Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills expôs os erros crassos da investigação e fortes indícios de que os três acusados eram, na realidade, inocentes. Lorri Davis decidiu escrever ao único deles que fora parar no Corredor da Morte. O destinatário foi Damien Echols, condenado à pena de morte dois anos antes, aos 20 anos. O crime de Echols? Vestir-se de preto, gostar de heavy metal e se interessar por religião e ocultismo em uma cidade pequena.

Damien, talvez eu tenha uma tendência a ser um pouco obsessiva, um pouco idealista demais e, definitivamente, muito sensível, mas… Eu não consegui parar de pensar em você naquele lugar, sabendo que tudo está muito errado… Parte meu coração saber que você está onde está e que é obrigado a suportar tudo isso. Por isso, assumo o compromisso de fazer o que estiver ao meu alcance para tornar a sua vida um pouco mais suportável.

Damien Echols na prisão de segurança máxima em Tucker, em 1996.

Damien Echols na prisão de segurança máxima em Tucker, em 1996.

A carta de Lorri Davis foi apenas uma das centenas que começaram a chegar à cela de Echols após a exibição do documentário. Mas em seu livro de memórias, Vida após a morte, ele explica que a arquiteta fez algo que ninguém nunca havia feito até então: desculpou-se por invadir sua privacidade num momento em que todos se esforçavam em dissecar os mínimos detalhes de sua vida. Echols respondeu à carta imediatamente e a correspondência entre os dois se tornou obsessiva.

Uma das fotos que Lorri Davis enviou a Echos na prisão.

Uma das fotos que Lorri Davis enviou a Echos na prisão.

Seis meses depois, Lorri fez sua primeira visita à prisão, e em 1998 decidiu abandonar tudo para ficar perto dele. Logo ela assumiu a defesa de Echols e, em 1999, os dois decidiram se casar. Foi a primeira cerimônia budista na história do sistema carcerário do Arkansas. Durante a celebração, que durou 45 minutos e teve seis testemunhas, eles puderam se tocar pela primeira vez.

Sem esperanças de provar a inocência de Echols, o casal vivia sem contar com o dia em que ele seria solto. Para se sentirem mais próximos, combinavam os programas de TV que assistiriam ao mesmo tempo como se estivessem indo ao cinema em um encontro romântico. Ajustavam os horários de sono para dormirem e acordarem juntos. Conversavam em pensamento o dia todo.

Com o apoio da equipe da HBO, que produziu mais dois documentários sobre o caso, e com a forte pressão da opinião pública, em uma campanha liderada por celebridades como Johnny Depp, Eddie Vedder e o cineasta Peter Jackson, Echols e Lorri não pararam de lutar. Após 18 anos encarcerados, Echols e seus dois amigos assinaram um acordo com a justiça e foram libertados. Para o estado do Arkansas, contudo, eles ainda são culpados. Mas Damien Echols e Lorri Davis continuam lutando.

Leia um trecho de Vida após a morte.

Damien Echols e Lorri Davis em junho de 2012, em Nova York.

Leia também: Paradise Lost: a série que documenta o drama de Damien Echols

Tags , .

Leia mais Notícias

Promoção Dia da Toalha

Promoção Dia da Toalha

A Ascensão das livrarias, por Ann Pachett

A Ascensão das livrarias, por Ann Pachett

Jim Hopper está de volta no novo livro do universo expandido de Stranger Things

Jim Hopper está de volta no novo livro do universo expandido de Stranger Things

Mariana Enriquez vence Premio Herralde de Novela 2019

Mariana Enriquez vence Premio Herralde de Novela 2019

Comentários

Uma resposta para “Casamento no Corredor da Morte

  1. Uau! Que história. Mas… enfim, é muito difícil julgar. Talvez esse crime pelo qual ele foi acusado seja só mais um no meio de tantos outros que a justiça humana não acha o verdadeiro culpado. Tomara que encontrem o assassino e ele e os amigos possam viver uma vida normal de novo. Mais uma aquisição muito boa de vocês da Intrínseca 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *